Não é fácil falar sobre violência de gênero. Tenho certeza que quase todas as mulheres têm alguma situação de abuso, assédio ou violência para contar. Algumas, por falta de consciência ou por sofrer isso de modo tão consecutivo, já normalizaram o fato. O problema é que a violência ainda vem embrulhada no silêncio. Mais do que vergonha, há muito medo. Como se dizer sim fosse a única opção a ser feita. Dizer não é morrer. Mas não podemos nos enganar, dizer sim é morrer também. O fato é que as mulheres não foram ensinadas a gritar, a enfrentar. Aliás, mulheres que se posicionam, incomodam, porque o feminino foi ensinado a ser agradável, não firme. E, sim, uma mulher que se posiciona contra, não é aceita.
As pesquisas mostram que o Brasil é um país brutal com as mulheres. Brutal em várias camadas e de muitas formas. Como se ser mulher fosse ocupar o espaço da menos valia social. Toda vez que uma mulher é morta por ser mulher ela sofre uma desnaturalização de si, uma destruição da sua humanidade. Vira coisa. E, coisa não tem alma, sentimento, dor. Há um embrutecimento de toda sociedade. Basta ler as notícias. Todos os dias tem alguma sobre estupro, violência, feminicídio. O problema é que, diante dos fatos, descobrimos que a misoginia não é exceção, é regra. E, como diz Eliane Brum, isso muda tudo, porque temos tratado o abuso e o estupro como exceção.
Talvez pudéssemos tentar pensar fora do binarismo “sim, não”. E, se pudéssemos pensar antes disso um outro caminho. Talvez pudéssemos descobrir que não precisamos buscar a aprovação de ninguém para ser quem somos. É um caminho longo, é verdade, pois a subjetividade feminina passa pelo outro o tempo todo. Talvez por isso toda mulher tenha uma péssima relação com seu próprio corpo. Primeiro porque ele precisa estar sempre correspondendo a demanda de beleza e juventude. Depois, porque ser olhada, vista, percebida nunca é um sentimento que chega sem medo, pois o olhar que chega, quase sempre, é invasivo, julgador. E as próprias mulheres fazem isso umas com as outras. E, isso só demonstra o quanto estamos todos e todas dentro deste sistema que mata e abusa das mulheres. E, é claro que faz isso com as crianças, com os negros, com os animais. E, é claro que os homens que pensam e são diferentes também sentem. Por isso, faz mal para todos nós.
Esta é uma luta de todos e todas. Como vamos resolver isso, não sei. Mas sei que precisamos nos perguntar sobre como reproduzimos o sistema e, ou nos submetemos a ele. É pensando sobre qual é a nossa responsabilidade neste caos, que podemos sonhar com uma outra sociedade.





