É feriado. As ruas se esvaziam de carros e se enchem de pessoas. Pessoas de todos os tipos, tamanhos, cores, ricas e não tão ricas, velhas, jovens, crianças. Uma gente diferente das gentes do dia a dia. No corre da vida, não tem cor, nem ritmo. É Carnaval, nem todo mundo gosta e ok. Isso é democracia. Cada um com seu cada qual respeitando o outro.
O corpo no feriado muda. Ganha outros adereços. Fica mais leve. Ganha outra liberdade. Um corpo que se descobre além do trabalho, que tem vontades de viver, brincar, pular. Ser outro corpo. Nosso corpo é nosso primeiro território. E também por isso é um espaço invadido constantemente, explorado de muitas formas. Todos os corpos passam por isso, mas o da mulher sofre ainda mais. É sobre o corpo delas que as práticas de dominação se constroem. Um corpo de uma mulher é sempre julgado. E agora no Carnaval, ainda mais. E será duramente julgado se for um corpo de uma mãe. Nem sempre as invasões acontecem de modo claro, às vezes é o comentário de uma amiga criticando a roupa, da sogra olhando torto, da chefe que julga, da prima que critica. Mas também será duramente julgado se for o corpo de uma mulher mais velha. É um desconhecido que diz que ela está demais para a roupa, que envelheceu demais para a folia, que não se dá o respeito pela idade que tem. Se for o corpo de uma mulher jovem, será cobiçado, olhado, invadido, apalpado e todo tipo de particípio possível. Estas falas têm o intuito de dominar o comportamento feminino e disciplinar o corpo da mulher. Nenhum sistema se mantém sem a dominação do outro. É difícil se divertir diante dos velhos comportamentos que se repetem ano após ano.
Por isso os feriados são importantes. Agora é Carnaval, mas para além da folia, pois há os que gostam e os que não gostam, o fundamental é poder encontrar uma forma de descansar. Descansar é um ato revolucionário. É no descanso que conseguimos repensar nossos desejos, nossa vida. É no descanso que encontramos alegria, que a cabeça para de girar e a ansiedade diminui. Estar constantemente trabalhando, deprime e, um sujeito infeliz não deseja nada além de dinheiro. E o melhor remédio para esta patologia social, é descansar, porque um corpo medicado serve apenas para não colapsar o trabalho. Não precisamos de resiliência. Precisamos descansar. É claro que alguém sempre irá criticar isso, como se critica o corpo feminino, mas descansar é inclusive livrar-se das amarras de nos alienarmos no desejo do outro. Um corpo que descansa é um corpo que não se adapta, pois adaptar-se ao que temos hoje, é muito mais morrer do que viver.

