O ser humano tem um jeito egoísta de comemorar suas conquistas. Geralmente centrado em si mesmo, pouco importa se os outros, sejam eles pessoas ou animais, farão parte coletivamente do feito. A ideia, ou melhor, o desejo misturado a uma certa dose de ingenuidade utópica, era de que fosse possível que todos pudessem comemorar suas alegrias e que isso não prejudicasse ninguém. Mas não é isso que percebemos, pelo menos não na maioria das vezes. Arrisco dizer que este tipo de alegria é individual e narcísica. Daí fico me perguntando o que é a alegria? Que tipo de uso fazemos dela? É interessante nos darmos conta de que a alegria em excesso pode ser prejudicial. E se pararmos para refletir um pouco mais, podemos nos dar conta de que a alegria em demasia pode ser, inclusive, cruel. Isso porque, em determinadas condições, a alegria se opõe a ideia de empatia. Ela pode ser tão autocentrada que perdemos a referência dos outros, do ao redor e do mundo. Tem um velho ditado japonês que talvez se aplique a esta digressão de pensamento que faço aqui: “o infortúnio dos outros tem gosto de mel”.
Vamos pensar num exemplo disso, juntos. Fogos de artifício. Acabamos de entrar em dezembro e já já eles ficarão cada vez mais frequentes. Os fogos têm uma relação direta com a alegria. Seja porque o ano está acabando ou porque se está comemorando a esperança de dias melhores ou as alegrias do que quer que seja. Uma alegria egoísta e histriônica que precisa que todos ao redor fiquem sabendo dela. Fogos de artifício não são nada empáticos. E a alegria transformada em explosão no céu polui o meio ambiente, atinge as aves, cria pânico nos animais domésticos cujos ouvidos são sensíveis demais para o barulho, assusta crianças, autistas, perturba nossos velhos, pessoas em hospitais e incomoda gente comum como eu e tu que me lê e não gosta disso. Que alegria estranha está que causa desconforto no entorno.
Vivemos tempos em que se o outro não gostou, ele que se dane. Daí o ditado japonês acima faz muito sentido, afinal, se é o outro que não aprova, ele que se retire. Esta arrogância não combina com a missa de domingo. Ter fé e processá-la diz respeito a busca de um Deus de amor e a tentativa de fazer deste espaço algo melhor. Não é o que vemos. Ou a fé em sua essência foi esquecida ou o Deus que se celebra hoje, a partir da prerrogativa que fomos feito a sua imagem e semelhança, é um Deus sem ética, egoísta, sem empatia e totalmente narcísico.





