O céu. Há um mistério na lonjura do que ocupa o espaço. Na infância passava horas olhando o céu e pensando se seríamos os únicos moradores do espaço. Uma coisa estranha de se imaginar. Tanto espaço e só a gente existindo. Olhar para o céu é um gesto antigo que tem desaparecido dos nossos tempos. Tempos nossos tão medíocres e vazios. Deve ser reflexo de tanto desencanto. Amanhã o objeto chamado 3I\ATLAS sairá da sombra do sol e voltará a aparecer em nosso céu. Este objeto não identificado que parece carregar em si materiais que nasceram em uma outra estrela, num outro tempo. Um visitante interestelar, será? A criança que em mim habita olha para o céu num misto de curiosidade e expectativa. Pode não ser nada disso, sabemos. Pode ser pior, como um meteoro que irá atingir nosso planeta em algum momento. Mas pensando bem, nada é pior do que o próprio ser humano.
O tal objeto não identificado tem provocado um frisson na comunidade científica, mas para além da academia, abre uma fissura em nosso tempo, afinal nos traz a lembrança de que, apesar de parte de nós buscar desenfreadamente o tal sucesso, a grana e a fama, parte sonha com a ideia de que não somos os únicos por aqui. E antes que achem que estou falando em alienígenas e tals, não é nada disso. Embora, um pedaço de mim às vezes sonha com a possibilidade da vinda de outros seres que, talvez, pudessem ser menos violentos, agressivos, sem ética e escrúpulos como os muitos da nossa espécie que conhecemos.
De toda forma, eu ainda sou uma pessoa que acredita na bondade, na generosidade, na ternura e tem esperança. E quando escrevo isso e depois leio em voz alta, me sinto um tanto quanto alienígena em meu próprio planeta. Uma estranha. Mas não faço poesia, estes sim são estranhos. Eu faço “proemas”, uma espécie de prosa poemada. Olho para o mundo, assim como para o céu e busco as fissuras, as fendas. Busco no outro o que busco em mim, solidariedade. Não acredito que conseguiremos sobreviver a nós mesmos sem aprendermos a ser solidários com o outro. Vivemos tempos tão egoístas.
Não faz diferença no que acreditamos. Uns em Deus, outros em ETs, outros ainda, em nada. O que importa é como usamos nossas crenças para fazer deste mundo um mundo melhor para nós e para o outro, porque diante dos números de violência e de manifestações de ódio, não precisamos de nenhuma ameaça externa, nós mesmos daremos fim ao que um dia chamamos humanidade.


