O relógio desperta, são 3h da madrugada. É hora de levantar e calçar o tênis de corrida. A rua aos poucos começa a se encher de pessoas muito parecidas. Correr poderia ser comparado a uma religião, só que não, porque correr é libertador. Na concentração a conversa rola solta, afinal apesar de sermos todos desconhecidos somos iguais nesta estranheza que nos faz acordar tão cedo e viver o esporte. O sol nem apareceu ainda e é dada a largada. É uma emoção. Aquela massa de pessoas, cada uma a seu modo transformam a rua num mar de pernas e pés. Não, eu não corro, mas sou parceira de treinos e da disciplina que todo corredor precisa ter. Levanto junto, acompanho a evolução do pace, cuido da cabeça, porque a mente é danada, e fico na torcida pelo tempo que for necessário.
Tudo começou há um ano, com leveza e determinação e, apesar de parecerem emoções antagônicas, são fundamentais. Levantar às 5h virou rotina, aos poucos a intensidade foi crescendo e hoje treina-se por aqui de segunda a segunda. Uma rotina de muitas atividades que começam com funcional, passam pela musculação, treino de bicicleta e de corrida, natação, pilates e eu ainda voltei pro jazz depois de 25 anos longe do linóleo.
É claro que há dias em que bate uma preguiça, daí a importância da parceria. E aqui vale parceria de amor e de amizade, porque quando fazemos algo juntos, ambos se beneficiam. E tem também todos os profissionais envolvidos. E apesar de parecer uma loucura, descobri que a felicidade é também alimentada pela conquista em ter um corpo que está em dia, forte e bonito sem nenhum tipo de intervenção. Eu de hoje jamais voltaria a ter o corpo de dez ou 20 anos atrás, porque estou melhor hoje.
Por isso, apesar de não correr vou para as maratonas torcer pela pessoa que amo e por todas as outras que descobriram que se exercitar fisicamente é uma alegria. Enquanto o corredor encarra seus limites e fantasmas, eu e uma pá de acompanhantes nos mantemos firmes torcendo por todos, incentivando e comemorando cada chegada. Faça amigos e você nunca estará sozinho. É uma emoção difícil de explicar para quem nunca sentiu isso. E, de certa forma, é uma espécie de generosidade, afinal abrimos mão de nós mesmos para vibrar com a conquista do outro, seja ele conhecido ou não, porque na corrida somos todos da mesma tribo.
Praticar um esporte é algo incrível. Não só porque parte de nós acessa o seu melhor enquanto ser humano, mas porque mostra que nosso corpo é perfeito e pode envelhecer melhor. Afinal, não temos um corpo, somos um corpo.


