Chove, a caminhada é suspensa. Caminhada é forma de dizer, assim bem de mansinho. Era pra ser uma marcha, um protesto, um aglomerado. Não deu. Aliás, até deu, mas foi pouquinha gente. Uma gente corajosa, diga-se de passagem e meio impermeável também. A raiva é uma ótima capa de chuva. Mas mais do que isso, não deu. Um punhadinho aguerrido de pessoas. Que coisa, por aqui até Deus é contra. Coisa estranha esta de creditar a um outro coisas que são nossas. É um outro que não presta, que é vadio, que não é trabalhador, que, que, que e a lista é interminável.
Projeção é o nome. A gente tem mania, dizem, meio inconsciente, mas desconfio, às vezes acho que é sabendo mesmo, de jogar nas costas dos outros coisas que não suportamos em nós mesmos. Ih, o mundo tá cheinho de gente assim. É sempre o outro que é mau caráter e jogando a coisa ruim para cima das costas do outro que nem sabe bem do que estamos falando, dá um certo alívio. Se o outro é quem não presta e eu reconheço isso, até me dou o direito de julgar, deve ser porque eu presto. Ledo engano. Afinal, se reconheço o feito conheço o que causa. O balaio tem mais gatos e raposas disfarçadas de gatos do que imaginamos. Aliás, nem deveríamos estar metaforizando utilizando a figura do gato, melhor seria usar a do rato.
Aliás, outra vez, temos tido uma infestação de ratos nos últimos tempos. Por aqui até a Secretaria da Saúde passou para dedetizar o bairro. Os ratos parecem estar querendo tomar conta do território. O grande problema é que se procriam rapidamente e o pior, estão cada vez mais saindo dos esgotos e aparecendo, sem pudor algum à luz do dia. Mais ou menos, alguns preferem à noite, sabemos. Acho o rato uma figura interessantíssima, assim no superlativo mesmo. Eles são uma espécie de ladrões, porque usurpam tudo que encontram pela frente e ao roubarem produzem uma desumanização da sociedade que corrói a vida do cidadão comum, esse mesmo que por puro não saber ou por ser naïf demais continua alimentando aqueles que o exploram, debocham ou não dão a mínima. Há uma certa perversidade nisso disfarçada de astúcia.
Escrevo sobre isso e lembro de um dos contos de Clarice Lispector que falava justamente da figura do rato. Mas no caso dela, o rato já estava morto. Um minúsculo rato que desperta na escritora raiva, medo, revolta, tristeza, esculhambando sua possibilidade do devir. Quem não fica irritado diante de ratos? O perigo está em acreditarmos no maldoso flautista de Hamelin que promete uma coisa e faz outra.





