Não se ache. E isso não é um conselho. Mas acredite, é melhor perder-se do que achar-se. Achar-se o tempo todo é muito chato. Com sinceridade, ninguém quer saber sobre como você se tornou a pessoa que acha que é. Porque achar-se é achar-se alguém.
Não se ache. Achar-se algo é achar que a vida é uma constante em linha reta, que por alguma razão saiu de um ponto, atravessou obstáculos e chegou aqui, transformado. Ou melhor, transtornado. Porque achar-se é achar-se um vencedor, um herói, um ser que saiu do nada e virou alguma outra coisa. Talvez pudéssemos imaginar que este é um bom começo para encontrar-se um engano.
Não se ache. Achar-se é a menor distância entre o que você acha que é e o que nunca foi. Não sobra espaço para a descoberta, o inusitado, a surpresa. Achar-se é tão conservador, elitista e, desculpe a sinceridade outra vez, arrogante. Além do que esconde uma enorme insegurança consigo mesmo.
Não se ache, mesmo que você seja um grande escritor, médico, empresário, influencer ou rico. Pessoas de fato grandiosas se acham minúsculas, porque sabem que nada sabem. Sabem que no dia que acharem que sabem alguma coisa estarão perdidas. Por isso é melhor perder-se antes do que se achar.
Não se ache. Deixe perder-se, Clarice Lispector já nos dizia, perder-se também é caminho. É no desvio que a estrada ganha história, porque achar-se é andar com GPS em voz alta dizendo o óbvio.
Não se ache. Porque no fundo a gente nunca se acha de verdade, é sempre o outro que nos encontra. É o outro quem diz o que somos, que nos reconhece em nossa beleza e em nossos equívocos. É o outro que, de certo modo, nos ensina como podemos nos olhar e nos reconhecer naquilo que somos, e paradoxalmente, sabendo que confiar apenas nisso é também cair numa armadilha.
Não se ache. Narciso morreu porque se achava demais. Se achava tanto que quis mergulhar em si mesmo e morreu afogado da própria imagem. Morreu também porque Eco se apaixonou por ele e não conseguia dizer nada além de repetir o que ele dizia de si mesmo.
Não se ache. A vida é muito curta para tanta certeza. Certezas são prisões nas quais nós mesmos nos aprisionamos. Nos fixamos numa ideia e não abrimos espaço para a dúvida. Mas são as dúvidas que nos fazem desejar. A dúvida é o caminho dos errantes e na errância o encontro, o inusitado, o sorriso entre desconhecidos.
Perder-se é precisar levantar a cabeça, olhar para os lados, não só para si mesmo e descobrir em outros olhares que somos todos semelhantes, sem mais nem menos.





