A gaveta da cômoda ao lado da cama era o local em que meu desejo se escondia, curioso. Coisa de criança. Cresci querendo saber o que meu pai guardava naquela gaveta ao lado de onde dormia. Perdi a conta de quantas vezes o via ali, mexendo na gaveta e quando eu entrava no quarto, ele a fechava. Desejava poder, escondida, abrir e mexer nas coisas dele. Aquela gaveta, meu metrônomo, marcou a passagem do tempo.
A gaveta cheia de recibos, um óculos quebrado, caixinhas de medicação vazias, cordas para violão, alguns documentos, uma caneta sem tampa, pilhas soltas, um telefone sem endereço ou nome, um canivete enferrujado, um chaveiro de chaves anônimas, moedas antigas, uma lanterna sem pilhas, um cortador de unhas, selos perdidos, um prego, um parafuso, alguns botões, uma fita para máquina de escrever, anotações sem sentido para mim, uma foto de minha mãe jovem e uns trocados. Tanta espera em vão? Na minha curiosidade a fantasia era mais generosa. Abri a gaveta alguns dias após sua cremação. E apesar de querer abrir, foi uma das coisas mais tristes que já fiz. Preferia ficar sem saber de nada. Abrir a gaveta era a constatação real da ausência.
Um inventário do real e eu sua inventariante declarada afirmo que as coisas que encontrei ficarão sob minha guarda. Ele que começou a sua despedida deste mundo num domingo às 10h27min. A vida que conheci nele desapareceu num fêmur quebrado que o levou embora daqui. Leio Elias Canetti e concordo plenamente, sei que não salvei e nem salvarei meu pai da morte, mas o resgato de seu morrer e contando dele luto contra o meu próprio desaparecimento.
Diante da gaveta dele, eu meio criança, mas já adulta. Apesar de meu pai ser um homem muito simples, as cordas do violão e a fita para a máquina de escrever, são preciosidades, pois nasci desta gaveta. Neste gesto de guardar coisas, restos, comprovando o depósito do acúmulo dos dias. Entre o que é possível de ser mostrado e a intimidade do que se guarda, a saudade de meu velho.
Domingo foi dia dos pais e só quando se perde alguém amado é que descobrimos o tamanho do peso que precisamos sustentar entre os braços, que sem poder abraçar, doem diante da falta. Mas não há desespero. Há talvez um des-espero, afinal, agora tenho eu uma gaveta e dela, de quando em quando, tiro umas palavras que coloco aqui, meu acúmulo dos dias.



