Ao longo dos séculos nos ensinaram a ter medo. Falar disso parece coisa de antigamente, mas não é. Ainda ontem, hoje, nos dizem que não podemos, não devemos, que somos frágeis demais, que lugar de mulher não é ali nem aqui. Nos dizem que precisamos ser assim, nos vestir deste modo, ter o corpo diferente, falar baixo, sorrir pouco, gargalhar nunca, não ser gorda demais nem magra demais, mas principalmente, não podemos ter raiva. Ter raiva é feio. Mulher raivosa é uma mulher descontrolada. Ter raiva é inadequado para uma mulher. Precisamos ser o contrário, sentir o contrário da raiva. Precisamos aprender a sorrir, a esperar, a servir, ser dóceis. Mulheres superiores são mulheres que não brigam, que não gritam, que toleram, que compreendem o descontrole do outro, que amenizam as agressões, pois conseguem entender porque o outro é violento. Mulheres boas são mulheres caladas, mudas, que sentem medo, que não se arriscam, que aprendem a depender do outro para nunca tomarem decisões sozinhas, que aceitam sua feminilidade e a ideia de pouca competência para ter autonomia por si mesmas. Mulheres boas, que servem para casar e ter filhos são as que, aos poucos, são ensinadas a não reivindicarem seu papel de sujeito. Não, são as que se sujeitam, as que viram objeto.
Para isso, a sociedade criou a ideia de um corpo psíquico feminino frágil e débil e que ao menor avanço da mulher em direção a uma autonomia, se manifesta recrudescendo o discurso misógino. Mulheres que dizem não a isso, que optam por estudar e ter uma carreira, que decidem se querem ou não ter filhos, que viajam sozinhas, que trabalham e ganham seu próprio dinheiro, que não querem exercer uma maternidade nos moldes atuais, que reivindicam o prazer sexual, que aceitam o próprio corpo e o seu envelhecimento, são rechaçadas. Não seguem o modelo maternal, dócil, resignado e delicado esperado por uma parcela da sociedade, formada por homens e mulheres, que não toleram o que não segue o padrão estabelecido.
Se por um lado a religião promete proteção às submissas e perseguição as que são insubordinadas, a ciência também tem seu quinhão ao tentar provar que somos inferiores. O que nos falta é raiva. A raiva é fronteira, é limite, é não. Somos mulheres, podemos escolher qual caminho queremos seguir e, principalmente, somos muitas. Ter raiva é ter amor próprio e saber que muitas vezes é melhor estar sozinha do que mal acompanhada. Tem um velho ditado que gosto muito que diz: não.




