Fiz 49 anos, ontem. Ontem ainda era criança. Caxias era menor, meu pai era vivo, minha mãe usava roupas que eu deseja usar quando crescesse. Ontem beijei pela primeira vez e confesso que achei estranho. Foi preciso crescer um pouco mais, beijar outras pessoas, para descobrir que beijar é uma das melhores coisas do mundo. Ontem sonhava no que queria ser quando fosse grande. Nunca tive grandes pretensões. Lembro que queria ser professora de Biologia, porque tinha uma professora que eu adorava no antigo segundo grau. Porque ontem era segundo grau e não ensino médio como é agora. Depois quis ser escritora, artista e precisei crescer muito para descobrir que o que eu quero mesmo é ser feliz, ter saúde, encontrar com amigos, ler muito e mexer no jardim.
Ontem foi eu correndo de pés descalços pela casa da colônia dos meus avós cheia de bichos-de-pé, porque eu saía da cidade para o interior e os pés eram os primeiros a denunciarem minha urbanice. Ontem eu me deitava depois do almoço no jardim da casa dos meus pais e ficava horas observando as nuvens. Na minha casa de infância tinha um lagarto que meu pai alimentava com uva e pão. O bicho era parceiro das horas lentas, até que asfaltaram a rua em frente à casa e ele fora atropelado. Nenhum de nós estava preparado para o fim.
Depois fui crescendo. Fomos, todos nós. Faço 49 e ainda me questiono: qual é a constituição íntima da vida? Talvez viver seja guardar em si a rota do tempo. Talvez. Nunca saberemos do real. A memória é uma grande ficção e hoje, 49 anos depois sinto que o tempo começa a me escapar. Sinto que já não o acompanho como antes. Talvez esteja ficando para trás. Desacelero, não só porque gosto do conceito, mas porque é preciso aceitar os fatos.
Um dia alguém me disse que o sentimento de finitude só começa a fazer sentido perto ou depois dos 50. E me assusto, pois provavelmente já passei da metade do tempo por aqui. Eu, que quando era adolescente, achava que o tempo não passava. Fecho os olhos. Abro e 49 anos se passaram. Eu cresci, Caxias mudou, a colônia dos meus avós não existe mais, nem eles, meu pai morreu, minha mãe não usa mais aquelas roupas de antes, a rua da frente de sua casa foi transformada em pista dupla, o jardim fora comido pelo bairro que cresceu. Mas se olho para trás ainda consigo ver a garotinha que fui. Me transformei naquilo que sonhei, é verdade, mas é mais. Virei alguém que nunca imaginei que poderia ser.
Como diz Pizarnik, que de mim não reste mais do que a alegria de quem pediu entrada e lhe foi concedida.



