
A BR-386, conhecida como Rodovia da Produção, é uma das mais importantes artérias logísticas do Rio Grande do Sul, conectando a Região Metropolitana ao norte do Estado. Iniciada na década de 1960, a rodovia teve trechos inaugurados ao longo dos anos e se tornou peça-chave para o transporte da riqueza gaúcha.
Há quatro anos, a BR-386 está em obras de duplicação, intervenções que prometem ampliar a capacidade, melhorar a segurança e reduzir o tempo de viagem em centenas de quilômetros que ainda operam em pista simples. Atualmente, cerca de 70% de toda a produção e movimentação econômica do Estado passa por ela.
— Ela compreende praticamente dois terços de toda a riqueza produzida no Estado, que passam pela BR-386. Então, quando a logística dela está funcionando bem, a gente consegue ter uma redução nos custos e uma segurança maior, principalmente para os caminhoneiros que circulam por ela. Mas um ponto que incomoda bastante é a demora na entrega das obras prometidas — disse Diego Tomasi, diretor da Fetransul.
A duplicação da BR-386 teve início em 2021. A projeção é que, até 2033, 131 quilômetros sejam duplicados entre Lajeado e Carazinho. A obra toda está orçada em R$ 990 milhões, com recursos da concessionária CCR Viasul, que administra a rodovia.
Perigo dos trechos em pista simples e o aumento de acidentes
A reportagem percorreu quase 130 quilômetros entre Estrela, no Vale do Taquari, e Tio Hugo, na Região Norte, para verificar de perto os principais problemas da estrada. Na rodovia, chama a atenção o número de caminhões que circulam diariamente.
— É uma rodovia perigosa na parte em que ela é simples. E com essas obras não acabam nunca, fica bem perigosa — avaliou o caminhoneiro Antônio Alexandre Barbosa da Silva.
Os dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) corroboram essa percepção de perigo. Somente neste ano, mais de cem acidentes graves foram registrados na BR-386, quase 20% a mais que no ano passado. O número de mortes também cresceu, passando de 25 para 43 óbitos.
— A questão da acidentalidade é um assunto complexo que envolve diversas frentes e, sem dúvida alguma, as obras são um fator contribuinte. Percebemos que muitos dos acidentes são causados por conta de imprudência, infelizmente, dos condutores — avaliou o chefe da delegacia da PRF em Lajeado, Marcos César Barboza Silva.
Dirigir pela BR-386 em um veículo pesado é diferente de um carro de passeio, uma vez que caminhões transitam de forma mais lenta devido ao peso da carga e ao tamanho. Por isso, trechos duplicados apresentam maior segurança, tanto para ultrapassagens quanto para a tranquilidade do caminhoneiro.
Enchentes de maio de 2024 atrasam duplicação

Pelo caminho, a reportagem identificou obras atrasadas na ponte entre Estrela e Lajeado, e em outros dois viadutos, entre Lajeado e Marques de Souza. O atraso nas entregas já chega a dois anos.
A previsão inicial de entrega da faixa adicional era fevereiro de 2023, mas o prazo foi adiado sucessivamente, até que a data foi fixada em 30 de novembro. Mas o prazo não será cumprido por causa da enchente de maio de 2024. Durante a tragédia, uma balsa chegou a bater na ponte entre Estrela e Lajeado.
Segundo a concessionária, a urgência de recuperação dos trechos afetados atrasou a instalação da faixa adicional. A CCR explica que as obras estão sendo concluídas e as pistas liberadas nos dois viadutos, mas não definiu uma data para a entrega completa da obra. Já na ponte, o que falta é finalizar o passeio.
A falta da duplicação significa caminhão parado, aumento no custo de produção e no preço do frete, gerando dificuldades para empresas de logística.
— O custo nosso, que deveria ter diminuído, ter uma competitividade melhor, está sendo postergado. O ponto fundamental é a agilidade na execução do que foi programado. Entregar no tempo prometido, para que a sociedade entenda que, no momento da construção, há o incômodo, mas saiba em que dia terá a solução definitiva — afirmou Valmor Scapini, diretor-presidente de uma empresa de logística em Lajeado.
A serra em Pouso Novo é o trecho mais delicado, pois a estrada tem muitas curvas e a pista é simples. A duplicação, que estava prevista para 2027, agora será em 2031. O motivo, de acordo com a CCR, é a necessidade de novos estudos topográficos.
As enchentes de maio de 2024 mexeram com a estrutura do local. Deslizamentos de terra arrastaram parte do asfalto durante a cheia, causando lentidão no trânsito até hoje. A recuperação dos estragos causados pelas chuvas deve ser concluída no início de 2026.
Trevo de Fontoura Xavier preocupa moradores

O km 292 da rodovia, no limite entre os municípios de Pouso Novo e São José do Herval, marca a divisão entre o Vale do Taquari e a Região Norte. De São José do Herval até o início da BR-386 no Estado, em Iraí, são aproximadamente 300 quilômetros.
No norte do RS, a obra é dividida em dois trechos: Fontoura Xavier a Soledade, e Soledade a Tio Hugo. Juntos, somam quase 60 quilômetros de duplicação. O investimento é de mais de R$ 700 milhões, com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da própria concessionária.
Em Fontoura Xavier, um ponto do projeto preocupa os moradores: o trevo que dá acesso à cidade deve ser alterado. Pelo plano da CCR, essa entrada pode deixar de existir, obrigando quem vem pela BR-386 a fazer um desvio de cerca de sete quilômetros.
— Sou contra porque vai dificultar bastante o acesso dos moradores à cidade, vai ficar bem mais complicado. Sei que têm se tentado várias formas de impedir que isso aconteça, e é o que a gente espera que o trevo continue no lugar que está — defendeu a professora Mônica Muttoni.
Algumas pistas já estão prontas, mas ainda não foram liberadas para uso. O Trecho Um, de 25 quilômetros, é o percurso mais adiantado da obra e iniciou no segundo semestre de 2023, mas também teve os prazos de conclusão alterados por conta das enchentes. A previsão é que a obra seja entregue até a metade do próximo ano.
Sinalização provisória e imprudência elevam número de acidentes
Enquanto os trabalhos avançam, os condutores enfrentam mudanças nas faixas, com uma sinalização provisória. Se não prestar atenção, o motorista pode se perder entre os cones mal colocados.
— Esse povo não está tendo consciência de que está atravessando a cidade, está em obras, é um acidente atrás do outro, é gente perdendo a vida, está difícil — desabafou o motorista Paulo Rodrigues.
No caminho que leva praticamente uma hora, de Fontoura Xavier a Tio Hugo, 142 acidentes de trânsito foram registrados neste ano, um aumento de 91% em comparação com o ano passado, e 14 pessoas morreram.
São 30 quilômetros a serem duplicados, com entrega para o fim do próximo ano, no Trecho Dois. Numerosas máquinas e trabalhadores constroem vias laterais, passarelas, retornos e instalam a sinalização desde agosto do ano passado.
A duplicação da BR-386 é um projeto que vai mudar a realidade de quem depende dessa estrada, dos Vales ao Norte do Estado. Mesmo com os transtornos, motoristas entendem que a duplicação é necessária.
— Tem que fazer a obra, a obra vai ser top depois que está pronta, só que para fazer está bem complicado — comentou o caminhoneiro Tiago Seben.
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