
Medicamentos à base de hormônios, as canetas emagrecedoras têm se popularizado entre quem quer facilitar o processo de perda de peso. Nos consultórios médicos, aumentaram os pedidos de prescrição, apesar dos riscos associados ao uso.
O endocrinologista do Hospital Cristo Redentor (HCR), João Ben, conta que, diariamente, pelo menos um paciente por turno faz solicitação das "canetas". Porém, quem solicita o medicamento nem sempre se enquadra nos critérios clínicos recomendados.
O especialista estima que cerca de um terço dos pacientes busca os hormônios com o objetivo de perda rápida de peso, sem disposição para mudanças de hábitos. O medicamento é indicado para utilização em longos períodos, justamente para incentivar mudanças comportamentais e evitar o temido efeito rebote.
Segundo o médico, isso ocorre porque cerca de 25% do peso eliminado com o uso das canetas corresponde à massa muscular, essencial para manter o metabolismo ativo:
— Se antes do tratamento uma pessoa gastava 2 mil calorias e comia 2 mil, ela mantinha o peso. Após perder peso e músculos, sua nova taxa metabólica pode cair para 1,5 mil calorias. Se ela não mudou o comportamento e voltar a comer as mesmas 2 mil calorias de antes, terá um superávit de 500 calorias, recuperando o peso rapidamente, muitas vezes com mais gordura do que tinha inicialmente.
Como as canetas agem?

As canetas agem à base de hormônios — conhecidos como GLP-1 e GIP — que estão relacionados ao controle da fome. Esses hormônios fazem com que a pessoa tenha saciedade precoce, coma menos e sinta menos fome ao longo do dia.
A diferença é que, no organismo, os hormônios naturais são rapidamente degradados. Já as versões sintéticas presentes nas canetas têm ação prolongada, geralmente por cerca de uma semana, o que potencializa seus efeitos.
O endocrinologista reforça que o principal objetivo do tratamento não é apenas emagrecer, mas promover mudança de comportamento. Por isso, a aplicação dos hormônios deve ser a longo prazo ou até por toda a vida.
— A mudança de comportamento leva tempo para ser processada pelo cérebro e o objetivo não é fazer com que a pessoa emagreça, mas que mude a alimentação. Quando é utilizado por períodos curtos, como dois ou três meses, a perda de peso até ocorre, mas sem que o organismo aprenda a nova rotina. Ao interromper o uso, o paciente tende a retomar os hábitos antigos — complementa.
Para quem são indicadas:
A indicação formal das canetas segue critérios técnicos bem definidos. Elas são recomendadas para:
- Pacientes com obesidade clínica, caracterizada por IMC a partir de 27 acompanhado de alguma comorbidade (quando o excesso de peso já provoca alteração física ou problema de saúde);
- Pessoas com IMC acima de 30, caracterizando obesidade.
Para quem não são indicadas
Há também contraindicações claras para o uso das canetas emagrecedoras. Entre elas estão:
- Histórico de tumor específico de tireoide (contraindicação absoluta);
- Casos prévios de pancreatite, que exigem avaliação e monitoramento rigoroso;
- Uso sem prescrição médica;
- Objetivos puramente estéticos e de curto prazo;
- Compra e uso do medicamento sem acompanhamento profissional.
Cautela no uso

Para quem adere ao uso das versões seguras para tratamento, há riscos e efeitos colaterais, principalmente gastrointestinais, como: náusea, refluxo gastroesofágico, diarreia ou constipação, desconforto e distensão abdominal.
Os pacientes também têm risco aumentado de cálculo de vesícula biliar e em vias biliares, além de complicações de efeitos colaterais, como hemorroida ou fissuras anais, associados à disfunção do trato gastrointestinal.
Além disso, se uma pessoa com peso saudável perder uma porcentagem importante de peso, como 10% ou 15%, pode ficar desnutrida. Assim, durante o tratamento, é imprescindível realizar o acompanhamento clínico.
Fiscalização e compra irregular
Conforme o endocrinologista João Ben, boa parte dos medicamentos utilizados sem prescrição não é adquirida em farmácias brasileiras, mas sim através da internet ou por contrabando pelo Paraguai.
— Muitas vezes são produtos manipulados ou de origem desconhecida, mas esses medicamentos não são liberados para manipulação. O remédio é bom, é seguro e ajuda a mudar o comportamento. Mas precisa ser usado com acompanhamento médico e dentro de um plano de mudança de hábitos — pontua.
Em Passo Fundo, segundo informações da prefeitura, não foram identificados até o momento estabelecimentos com venda irregular das canetas. A reportagem também procurou a Receita Federal, que informou não ter realizado apreensões do produto na região até agora.
Somente com receita
Desde julho de 2025, farmácias e drogarias passaram a reter receitas de medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy. A categoria inclui as canetas à base de semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida, tirzepatida e lixisenatida.
A decisão para um controle mais rigoroso na prescrição e na venda desse tipo de medicamento foi tomada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A medida visa a proteger a saúde da população brasileira dos eventos adversos relacionados ao seu uso fora das indicações aprovadas.
A prescrição deve ser feita em duas vias, e a venda só pode ocorrer com a retenção da receita nas farmácias e drogarias, assim como acontece com antibióticos. A validade das receitas é de até 90 dias a partir da data de emissão, período durante o qual poderão ser utilizadas pelo paciente.
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