
A mortalidade por câncer de próstata cresceu 78% em Passo Fundo, na Região Norte. O aumento é reflexo do represamento de exames durante a pandemia, já que boa parte dos esforços de saúde ficou restrito ao combate do coronavírus.
Os dados do Painel Oncologia Brasil (Datasus) se referem ao período de 2021 a 2024. Eles mostram ainda que na área da 6ª Coordenadoria Regional de Saúde o aumento foi de 56%.
— Houve um represamento enorme de consultas e exames. Hoje, estamos vendo a consequência dos pacientes que não foram tratados há dois, três ou cinco anos — explica o oncologista do Centro de Tratamento do Câncer, Alvaro Machado.
As dificuldades de acesso ao sistema público de saúde também influenciam o crescimento. Segundo o médico, os serviços não ampliaram suas especialidades na velocidade que a população exige. Só no Rio Grande do Sul, cerca de 25 mil pessoas aguardam consulta com urologista.
Diagnóstico tardio
O aumento também é fruto de um cenário em que a maioria dos diagnósticos é tardia. Conforme o levantamento, um em cada três homens da Região Norte descobre a doença apenas quando ela já se espalhou por outros órgãos.
— Quando a lesão está restrita à próstata, a cirurgia tem alta eficácia. Mas, quando o tumor já é maior, a chance de cura cai drasticamente e é preciso lançar mão de outros tratamentos — conta o oncologista.
A chance de cura ultrapassa 90% quando há diagnóstico precoce. No entanto, na região, 36% dos pacientes já chegam com tumor em estágio metastático, enquanto outros 37% sequer têm estadiamento definido.
— O objetivo do exame não é identificar um nódulo que já sabemos que está lá. É examinar quem não sente absolutamente nada, porque, se encontrarmos o tumor nessa fase, a chance de cura é imensa — explica sobre o panorama, que escancara as lacunas de informação sobre o câncer de próstata.
Acesso desigual
O tratamento também não é igual para todos. Uma pesquisa apresentada no Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica mostra que pacientes atendidos na rede privada de saúde têm sobrevida mediana de 65,7 meses, enquanto no SUS o número cai para 44,8 meses.
— Esses números reforçam o que vemos no dia a dia: quando o acesso é limitado, o paciente perde um precioso tempo em que poderia já estar em tratamento — afirma o especialista.
Aliada a um cenário cultural, a resistência masculina ao acompanhamento preventivo também pesa:
— O homem procura atendimento muito tarde, muitas vezes porque não sente nada. Esse atraso se soma ao gargalo já existente no sistema.
Com a demanda por consultas alta, a medicina avança com métodos como a biópsia dirigida por fusão. O tratamento aumenta a precisão na identificação de lesões suspeitas e reduz a necessidade de repetir procedimentos.
Outro salto é o PET-PSMA, exame que se tornou referência mundial para localizar metástases pequenas, funcionando como um “GPS do tumor”. Porém, ainda não está amplamente disponível no SUS, reafirmando desigualdades regionais.
A recomendação padrão ainda permanece: homens a partir de 45 anos devem procurar avaliação urológica anual. Como os sinais da doença tendem a aparecer apenas em estágios avançados, qualquer alteração urinária (sangue, jato enfraquecido ou maior frequência) deve ser investigada. Dor óssea e disfunção erétil também podem indicar a progressão da doença.
🤳 Para ler mais sobre o que acontece na região, entre no canal de GZH Passo Fundo no WhatsApp e receba as principais informações do dia. Clique aqui e acesse.



