
Mais de 1,5 mil transplantes foram realizados no Rio Grande do Sul entre janeiro e a primeira quinzena de setembro, segundo a Secretaria Estadual da Saúde (SES). Mas, apesar da melhora em relação a anos anteriores, o número de pacientes na fila de espera ainda preocupa.
O Setembro Verde é o mês de conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Atualmente, mais de 3 mil pessoas aguardam por doações no Estado — a maioria espera por rim e córnea, de acordo com os dados da SES:
- Rim: 1.486
- Córnea: 1.155
- Fígado: 173
- Pulmão: 85
- Coração: 15
Quem trabalha para reverter esse quadro é a Organização de Procura de Órgãos (OPO). No norte do RS, o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), em Passo Fundo, abriga uma dessas equipes médicas que identificam possíveis doadores a partir de casos de morte encefálica nos hospitais.
Após a identificação, a família é informada sobre a possibilidade de doação. Se houver concordância, exames são realizados para confirmar o diagnóstico.
A notificação de morte encefálica é obrigatória por lei.
Recusa familiar impede doações
Na unidade da OPO de Passo Fundo, que atende as regiões Norte e Noroeste, foram registradas 76 notificações de morte encefálica neste ano. Dessas, apenas 18 resultaram em doações efetivas.
O médico coordenador do serviço, Cassiano Ughini Crusius, explica que a recusa familiar é um dos principais fatores que impedem a doação.
— A negativa familiar é quando a família pode doar os órgãos, mas não aceita fazer essa doação. Então, nós temos aqui na nossa região, na OPO 4, um índice de 60% de negativa familiar. É um índice alto — avalia o médico.
Segundo Crusius, o desconhecimento sobre o diagnóstico contribui para esse cenário. Em muitos casos, a família não tem a compreensão de que a morte cerebral equivale à morte biológica.
Ele também destaca a importância de conversar sobre o tema:
— Temos um índice muito grande de pessoas que não conversam sobre doação. No momento da entrevista familiar, se vê que o paciente não tinha manifestado nenhum desejo. Então, os familiares optam por não fazer justamente porque desconheciam se esse paciente seria eventualmente um doador de órgãos ou não.
Formalização em cartório
O próximo sábado (27) marca o Dia Nacional da Doação de Órgãos, instituído pelo Ministério da Saúde para conscientizar a população sobre a importância desse gesto. E desde abril de 2024, os cidadãos podem formalizar sua vontade de doar órgãos gratuitamente e 100% digital.
No Estado, mais de 850 pessoas já solicitaram a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO). O processo é feito pela plataforma e-Notariado, em que o interessado pede o certificado, realiza uma chamada de vídeo com um tabelião e assina eletronicamente o documento, escolhendo quais órgãos deseja doar.
A AEDO passa a integrar automaticamente a Central Nacional de Doadores de Órgãos, podendo ser consultada por profissionais de saúde credenciados no Sistema Nacional de Transplantes. O documento pode ser revogado a qualquer momento pelo cidadão.
— Aproveito para chamar a atenção disso: que todos conversem entre si sobre doação de órgãos, para esclarecer suas dúvidas e até mesmo para manifestar ou não seu desejo em vida — destaca Crusius.
Caminho para receber um órgão

Muita coisa precisa ocorrer até que um órgão seja doado. Equipes são mobilizadas e famílias, sensibilizadas. Entenda, em alguns passos, como isso é feito:
- Morte de um paciente – Para doação de órgãos é necessária a morte encefálica, que é atestada por um rígido protocolo. Já para a doação de tecidos, um paciente morto em parada cardíaca sem contraindicações pode ser doador, respeitando o mesmo trâmite de autorização familiar e demais passos
- Conversa com a família – O passo seguinte é conversar com a família, que precisa autorizar, mesmo que tenha havido uma manifestação do doador morto, no sentido de doar. Equipes especializadas, com psicólogos e outros profissionais, são treinadas para fazer isso da forma mais humanizada possível
- Condição clínica – A avaliação para habilitar a doação é feita pela equipe de captação, que levanta a ficha do paciente, procura infecções ou contraindicações
- Mobilização das equipes – Neste momento, atuam tanto os profissionais que fazem a retirada quanto os que implantam cada órgão, de acordo com sua especialidade. Enquanto isso, uma equipe também entra em contato com o paciente indicado para receber o órgão ou tecido. Tudo precisa ser feito com a maior celeridade possível
- Coleta do órgão – As equipes responsáveis por cada órgão fazem a retirada, de forma que o corpo seja entregue para a família sem sinais aparentes, permitindo que a despedida, de acordo com cada cultura ou religião, transcorra sem qualquer diferença – este é outro mito que prejudica possíveis doações
- Preparação – Na outra ponta, o paciente que vai receber o órgão ou tecido já está sendo preparado para isso. São feitos exames complementares e atestada a capacidade de passar pelo procedimento, além da compatibilidade
- Transplante – É no bloco cirúrgico que esses dois elos se unem. O órgão ou tecido é finalmente implantado no paciente, que nas semanas seguintes tem a atenção voltada à “pega”, ou seja, à entrada em funcionamento daquele novo órgão ou tecido em conjunto com seu organismo
- Doador vivo – Nestes casos, doador e receptor passam por exames que atestam a compatibilidade e as condições para que sejam submetidos ao procedimento. Eles são levados juntos para o bloco cirúrgico, cada um com sua equipe: uma é responsável pela coleta e outra, imediatamente, faz a implantação.
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