Estatuto, livro-caixa, assembleias e eleição de diretoria. Os termos parecem fazer parte da rotina de empresas ou cooperativas consolidadas, mas, em Tapejara, no norte do Estado, estão no vocabulário de mais de 70 estudantes do 6º ao 9º ano das escolas municipais Benvenuta Sebben Fontana e Giocondo Canali.
Criadas em novembro de 2025, as primeiras cooperativas escolares já mostram resultados no comportamento e na formação dos alunos, que aprendem na prática conceitos de gestão, cooperação e liderança.
As cooperativas foram implantadas por meio de uma parceria entre a secretaria municipal de Educação e o Sicredi Altos da Serra RS/SC.
Batizadas de BenCoop e GioCoop (em alusão às escolas), as cooperativas são administradas pelos próprios estudantes, que assumem funções como presidência, tesouraria e conselhos. O objetivo, porém, não é obter lucro, mas ensinar na prática como funciona uma cooperativa.
— A gente não visa fins lucrativos, queremos que eles aprendam a fazer os documentos, mexer no livro-caixa, avaliar qual será o objeto de aprendizagem deles e que possam definir o custo de produção e quanto custará para vender — explica a professora e coordenadora pedagógica das séries finais da escola Giocondo, Grazzyella Zanchetta Vieira.
Como funcionam as cooperativas

Antes da fundação, professores e estudantes passaram por uma série de "missões preparatórias", que os ensinaram a fazer o planejamento, organização e tomada de decisões. Só depois dessa etapa as cooperativas foram oficialmente criadas e passaram a ser administradas pelos próprios alunos.
A BenCoop, da escola Benvenuta Sebben Fontana, já definiu o ramo de atuação: devem fazer a comercialização de vasinhos com suculentas. A ideia veio dos próprios alunos, e está de acordo com os pilares das cooperativas escolares, de promoverem um produto com viés econômico, social e o sustentável.
— Eles abriram o caixa com uma doação de R$ 5 de cada cooperado. Conseguiram as mudas de doação da comunidade, e os vasinhos são reutilizados, gastaram apenas com substrato para plantas. Estamos prontos para fazermos nossa primeira venda na festa junina da escola, será o “teste” — explica a professora da cooperativa da escola, Valeria Dal Bosco.
A GioCoop ainda está na fase de definição do ramo de atuação. Entre as possibilidades estudadas pelos alunos está a produção de sabonetes e aromatizantes. Enquanto a decisão não é tomada, a presidente Ashley Vitória Oliveira de Lima, de 15 anos, diz que a principal conquista do projeto já aconteceu: o desenvolvimento pessoal.
— Nós estamos na última missão, de definir o que faremos. Possivelmente faremos sabonetes ou algo nessa linha de aromatizantes cheirosos. Mesmo assim, vejo que estamos fazendo certo, eu mesma já me desenvolvi na fala, no comunicar. Estou até triste que ano que vem, ao sair do nono ano, precisarei deixar a cooperativa.
O relato é confirmado pela professora, que acompanha o desenvolvimento dos alunos dentro da sala de aula:
— Eles ficaram mais focados nas outras disciplinas também, noto no comportamento, no espírito de liderança deles dentro da sala de aula. Isso tudo depois que eles estão nas cooperativas, fez a diferença — afirma Valéria.
Para a presidente da BenCoop, Manuela Peter, 15 anos, estudante do 9º ano, participar da criação da cooperativa desde o início foi uma das experiências mais marcantes do projeto:
— É uma cooperativa mesmo. A gente começou do zero, criamos o nosso estatuto social, que são as nossas regras, fundamos a cooperativa, convidamos as pessoas para nossa fundação. É uma experiencia muito válida na vida de qualquer um, e todo mundo que tiver oportunidade, tem que aproveitar.
Além dos conhecimentos sobre gestão, os estudantes dizem que o projeto também contribui para o desenvolvimento pessoal. Diretora de comunicação da BenCoop, Ângela Maria Zanatta Favareto, 13 anos, afirma que ganhou confiança para falar em público e descobriu uma nova habilidade:
— Depois que entrei na cooperativa senti uma diferença muito grande. Eu não falava, era quieta, e agora consigo falar em público. Também estou desenvolvendo a parte de edição de vídeos, que é algo que eu penso em trabalhar no futuro.
Futuro das cooperativas escolares
Com menos de um ano de funcionamento, as cooperativas já despertam o interesse da rede municipal em ampliar o projeto. Segundo a secretária municipal de Educação, Jaqueline Palma, a implantação nas duas escolas teve caráter piloto e servirá de base para os próximos passos da iniciativa, que incluem a construção de uma sede exclusiva para as cooperativas escolares.
— Vejo que os dois projetos estão caminhando muito bem, o trabalho evoluiu e queremos incentivar eles ainda mais. Até o fim do ano queremos ter uma sede própria das cooperativas, que deve ser a primeira do Estado, construída na Benvenuta Sebben Fontana — analisa.



