
Por Jocélio Nissel Cunha, presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho
Após a reforma tributária que trouxe um aumento considerável na carga tributária brasileira, agora o governo federal enviou ao Congresso Nacional, no último dia (14), o projeto que propõe o fim da jornada 6x1 no Brasil. Isso acontece em um contexto político bastante específico.
Em ano eleitoral, o governo decidiu encaminhar, em regime de urgência, uma proposta de enorme repercussão econômica e social, com um prazo efêmero para análise pela câmara dos deputados e pelo senado federal. A escolha do momento levanta um questionamento inevitável: trata-se de uma política pública cuidadosamente planejada ou de uma iniciativa com forte apelo popular pensada para capital político imediato?
Quando temas complexos são acelerados dessa forma, o risco é que a profundidade do debate seja sacrificada em nome da conveniência eleitoral.
O debate sobre o fim da jornada 6x1 no Brasil tem ganhado contornos emocionais, quase sempre ancorados em uma narrativa simplista de “avanço civilizatório”. No entanto, quando se abandona o terreno das boas intenções e se entra no campo da realidade econômica, o cenário que emerge é muito menos confortável e potencialmente desastroso.
A proposta de eliminar a escala 6x1, embora sedutora sob a ótica do bem-estar do trabalhador, ignora um elemento central: o Brasil não é a Europa. Trata-se de uma obviedade frequentemente negligenciada no debate público. Países europeus operam com níveis de produtividade muito superiores, maior capitalização empresarial, sistemas tributários mais previsíveis e, sobretudo, uma informalidade muito menor. Transplantar modelos sem considerar essas diferenças estruturais não é progresso é imprudência.
A ideia de reduzir a jornada sem reduzir salários parte de um pressuposto otimista: o de que as empresas conseguirão absorver integralmente esse impacto sem grandes consequências. Na prática, porém, o que se desenha é um aumento direto no custo da mão de obra. Em setores que dependem de operação contínua, como a indústria, o comércio, alimentação e serviços básicos, trabalhar menos dias significa, inevitavelmente, contratar mais gente ou pagar mais horas extras.
Nenhuma dessas alternativas é gratuita e sem consequências. Diante disso, o primeiro reflexo tende a ser o repasse de custos para o consumidor. Produtos e serviços ficam mais caros. O almoço fora pesa mais no bolso, o supermercado encarece, o pequeno serviço do dia a dia sobe de preço. O impacto é generalizado e atinge com mais força justamente as famílias de renda mais baixa, que já comprometem grande parte do orçamento com consumo essencial. Mas o efeito infelizmente não para por aí.
Empresas menores, que operam com margens apertadas, podem simplesmente não conseguir acompanhar esse aumento de custos. O resultado provável é a redução de contratações formais ou, em muitos casos, a migração para a informalidade. Contratos mais frágeis, menos direitos, menos segurança. Aquilo que se propõe como avanço social pode, paradoxalmente, empurrar trabalhadores para condições ainda mais precárias.
Há também o risco concreto de aumento do desemprego. Se manter um funcionário se torna mais caro, a reação natural de parte do mercado é reduzir quadros ou automatizar processos. Não se trata de má vontade empresarial, mas de sobrevivência econômica. Em um país com histórico de baixa produtividade, impor custos adicionais sem contrapartidas tende a excluir justamente quem mais precisa de oportunidades.
E quando o emprego formal diminui e os preços sobem, surge um efeito em cadeia: o endividamento das famílias. Com renda pressionada e custo de vida em alta, o crédito passa a ser uma válvula de escape, muitas vezes levando a ciclos difíceis de romper. O resultado final não é mais bem-estar, mas maior fragilidade econômica e social da população.
A forma como o projeto está sendo conduzido reforça essa preocupação. Um prazo de 45 dias, em regime de urgência, não oportuniza o debate necessário com empresários, trabalhadores, especialistas e a própria sociedade. Não há espaço suficiente para estudos de impacto, nem para calibragem de eventuais medidas compensatórias. O que deveria ser uma construção coletiva corre o risco de se tornar uma decisão apressada e trágica.
O ponto central é simples, embora desconfortável: não existe mudança estrutural sem consequências de custos. E, na ausência de ganhos reais de produtividade, esse custo não desaparece, ele apenas muda de lugar. Pode sair da empresa, mas reaparece no preço, no emprego ou na renda. Isso não significa defender a manutenção da jornada 6x1 como ideal. Significa reconhecer que mudanças dessa magnitude precisam ser acompanhadas de medidas concretas: aumento de produtividade, redução de encargos tributários e previdenciários, melhoria do ambiente de negócios. Sem isso, a conta não fecha.
A discussão, portanto, não deveria ser “trabalhar menos ou mais”, mas “como trabalhar melhor sem empobrecer ainda mais o país”. Porque, no fim, quando decisões complexas são tomadas sob pressão política e com prazos artificiais, o impacto não escolhe lado, ele atinge a sociedade inteira. E, frequentemente, quem paga a conta final é justamente quem menos participou da decisão.
Jocélio Nissel Cunha é presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho, vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Carazinho (ACIC) e membro do Conselho Superior da Federasul.


