
Por Jocélio Nissel Cunha, presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho
Faltam apenas alguns dias para que a tão anunciada Reforma Tributária comece a ser implementada oficialmente no Brasil, fato que ocorrerá a partir de janeiro de 2026. Para os novos tributos CBS e IBS será uma fase inicial de transição e testes, com implementação gradual até 2033. Mas a incidência do IRRF sobre a distribuição de lucros e dividendos das empresas começará a valer desde o primeiro dia do novo ano.
Vendida ao longo dos últimos anos como a grande solução para simplificar impostos, reduzir burocracias e impulsionar o desenvolvimento econômico, a reforma chega cercada de dúvidas, tensões e fortes críticas, especialmente agora que seus efeitos práticos começaram a se revelar.
Na teoria, a reorganização dos tributos sobre consumo deveria modernizar o sistema e corrigir distorções históricas. Na prática, porém, o que diversos setores vêm antecipando, a “reforma” trará um aumento generalizado da carga tributária, capaz de levar o país ao patamar mais alto de impostos desde seu descobrimento.
Um paradoxo que se impõe: a promessa de alívio se converte, aos olhos de muitos, em uma tempestade fiscal anunciada, e tudo isso passou pelo Congresso Nacional em tempo recorde, sem qualquer possibilidade de uma ampla e necessária discussão que o tema impõe antes de sua aprovação pelas duas casas.
Empresários de diferentes segmentos expressam crescente preocupação com o impacto das novas alíquotas combinadas, que tendem a elevar custos de produção, restringir investimentos e comprometer a competitividade nacional, especialmente em um cenário global de alta concorrência e instabilidade econômica.
Situação crítica
Para micro e pequenas empresas, a situação é ainda mais crítica: muitos temem que a transição, complexa e mal detalhada, acabe por elevar despesas administrativas e reduzir margens já apertadas. Algumas grandes empresas já focam seus investimentos em países vizinhos. O Paraguai tem se destacado como destino atrativo para investimentos estrangeiros, especialmente vindos do Brasil, graças a fatores como baixa carga tributária, estabilidade jurídica e energia elétrica mais barata que no Brasil.
Para o cidadão comum, o receio é ainda mais direto: pagar mais por praticamente tudo. Da cesta básica aos serviços essenciais, a expectativa é que boa parte dos produtos sofra reajustes em face do aumento da carga tributária. E isso em um país onde a população já convive com décadas de frustração e impostos elevados, que na maior parte das vezes não retornam em serviços públicos minimamente eficientes e tão necessários.
Ano após ano, o contribuinte vê muito pouco ou quase nenhuma melhoria proporcional aos impostos pagos, especialmente nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e segurança pública. O governo federal segue sustentando que a reforma trará ganhos no médio e longo prazo, apostando em maior transparência, eficiência e racionalidade fiscal.
Mas, diante de uma economia fragilizada e de uma sociedade cansada de promessas, a confiança não se recupera por decreto.
A proximidade da virada do ano intensifica a sensação de que o país está prestes a mergulhar em um novo ciclo de sacrifícios coletivos, sem quaisquer garantias reais e concretas de retorno ao cidadão brasileiro
JOCÉLIO CUNHA
presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho
Isso tudo, em um cenário que o país já figura entre as nações com maior carga tributária do mundo. Assim, o Brasil chega ao final de 2025 com um clima de ansiedade coletiva.
Pergunta inquietante
Em vez do otimismo que normalmente acompanha a chegada de um novo ano, paira uma pergunta inquietante: estamos prestes a modernizar o sistema tributário brasileiro ou apenas a empilhar mais peso sobre quem já carrega um fardo histórico?
Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: 2026 começará deixando clara a conta que o país terá de pagar. E, segundo muitos especialistas, será a mais alta que já tivemos desde que este território passou a ser chamado Brasil.
Nosso país é amplamente reconhecido, por ter um povo resiliente, que se adapta e se recupera de dificuldades com otimismo, humor e criatividade, usando a fé, a cultura e o "jeitinho" para superar desafios sociais e econômicos, mas essa resiliência toda será mesmo ilimitada? Isso somente o futuro dirá.
Jocélio Nissel Cunha é presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho (HCC), vice-presidente da ACIC Carazinho e membro do Conselho Superior da Federasul.





