
Por Luciana Londero Brandli, coordenadora do Green Office UPF
A COP30, sediada em Belém neste ano de 2025, promete marcar uma virada histórica. Segundo o presidente designado da conferência, embaixador André Corrêa do Lago, esta deverá ser “a COP da Adaptação” — a COP em que governos, empresas, cidades e universidades finalmente colocam a adaptação no mesmo nível de centralidade que a mitigação.
Quando falamos em adaptação, nos referimos a reduzir danos e aumentar a resiliência diante de um clima que já mudou, o que envolve um conjunto de ações para proteger pessoas, cidades, setores produtivos e ecossistemas dos impactos que já estão ocorrendo e dos que ainda virão.
Já a mitigação implica em reduzir ou evitar as emissões de gases de efeito estufa ou aumentar a capacidade de removê-los da atmosfera, o que também é extremamente importante.
Além disto, esta deverá ser a COP da Implementação. Não há mais tempo nem energia para compromissos não atendidos. Mas, para que isso aconteça, é preciso responder a duas perguntas cruciais: a que clima teremos de nos adaptar? E se dispomos das informações necessárias para planejar e tomar decisões?
Em um país marcado por secas extremas, ondas de calor, enchentes recordes e mudanças cada vez mais rápidas, e até mesmo tornados, como vimos na ultima semana, a resposta passa, inevitavelmente, pelas universidades.
O impacto das universidades
As universidades brasileiras são centros de transformação científica, social e ambiental. Elas formam profissionais, desenvolvem pesquisas aplicadas, influenciam políticas públicas e atuam diretamente em seus territórios. Nos últimos anos, cresceram como espaços de experimentação e inovação.
Apenas na última década, o número de cursos com temáticas ambientais quadruplicou (de 120 cursos em 2010 para mais de 420 cursos em 2025), mostrando a crescente demanda por formação em sustentabilidade, economia verde e adaptação climática.
Na pesquisa, houve um crescimento expressivo no financiamento de projetos científicos com ênfase na sustentabilidade, sejam pelas FAPS, CNPQ ou CAPES, FINEP, etc. Ao mesmo tempo, as instituições começam a avançar em planos de gestão ambiental, práticas sustentáveis em seus campi e iniciativas de “living labs” (laboratórios vivos).
Entretanto, a mensuração do carbono e as estruturas robustas de governança climática nas universidades ainda são etapas incipientes — e fundamentais para cumprir os compromissos internacionais.
Atualmente, o financiamento global para adaptação representa apenas um terço dos recursos climáticos. E, mesmo assim, é a adaptação que determinará a sobrevivência de comunidades e economias diante dos eventos extremos.
Para cumprir o mandato legal do programa Emirados Árabes Unidos–Belém, a COP30 deverá entregar indicadores globais da Meta de Adaptação (GGA). Esse processo exige conhecimento técnico, dados confiáveis e inovação.
Além disso, Os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) são hoje a principal referência científica sobre a crise climática mundial — e só existem porque milhares de cientistas de diversos países trabalham de forma colaborativa, independente e voluntária.
É a adaptação que determinará a sobrevivência de comunidades e economias diante dos eventos extremos
LUCIANA LONDERO BRANDLI
coordenadora do Green Office UPF
Missão mais profunda
Em um cenário em que a informação científica por si só não muda comportamentos, as instituições de ensino superior têm uma missão ainda mais profunda: promover a transformação cultural necessária para enfrentar a crise climática.
A crise climática exige instituições mais integradas, mais práticas, mais colaborativas e mais conectadas com seus territórios. Se as universidades assumirem uma postura protagonista — articulando ensino, pesquisa, extensão, governança e inovação — poderão não apenas formar os líderes da transição climática, mas também ser líderes dessa transição.
A COP30 representa uma oportunidade única. Uma oportunidade de mostrar que a adaptação é, sim, urgente; que ciência e sociedade precisam caminhar juntas; e que as universidades brasileiras podem e devem ser agentes transformadores em direção a um futuro resiliente, justo e sustentável.
Luciana Londero Brandli é coordenadora do Green Office UPF e pesquisadora Produtividade em Pesquisa CNPQ — A.

