
Por Sônia Kaingang, jornalista indígena independente
As coisas mudam e são aprimoradas, e a valorização da arte indígena anda por esse caminho — e, sim, isso exige um custo e a diferencia. O norte gaúcho conheceu um pouco desta “nova” realidade durante a Exposição de Arte Kaingang conduzida pelo Instituto Kaingáng na Feira de Economia Solidária (Fresol), que terminou no último domingo (9), em Passo Fundo, reunindo cerca de 140 expositores no conservador Bourbon Shopping da cidade.
Neste espaço, me vieram à mente cenas da minha infância e a certeza do quanto as coisas podem mudar. As reações estampadas em muitas pessoas na época não eram boas ao ver as famílias indígenas artesãs do meu povo negociar seus produtos culturais — balaios, cestos, arcos, flechas e outros — nos diversos pontos da cidade e no norte do RS, onde eu nasci.
É o mesmo cenário onde, décadas depois, em 2020, o Estado se veria na condição de reconhecer o artesanato produzido e comercializado pelas comunidades indígenas como de relevante interesse cultural. Um resultado que mostra a insistência das populações indígenas que compõem o RS em afirmar ao longo do tempo o valor das expressões culturais tradicionais indígenas e seu patrimônio material e imaterial.
Essa perspectiva acertada possibilitou que uma organização indígena como o Instituto Kaingáng fosse multipremiada no Brasil e levasse a discussão a outro patamar, aos moldes de uma negociação justa que agrega alto valor à arte que comercializamos, ancorada no investimento em formação de capacidades, na qualificação e valorização da educação e cultura em diferentes comunidades Kaingang do sul e sudeste.
Um trabalho artístico baseado no conhecimento tradicional dos nossos anciãos Kaingang, estendido aos artesãos e professores indígenas, homens e mulheres nas escolas em suas comunidades, multiplicadores desse saberes aos jovens e crianças, formando um resultado coletivo incrível em meio ao povo Kaingang.
Em quatro dias de exposição, nosso desejo foi apresentar aos visitantes um pouco sobre essa atuação que levou ao menos duas décadas para se estabelecer. E quando a explicação se conecta ao preço final da arte, as coisas ainda parecem se reduzir a pergunta que vamos ter de responder sempre: quanto é? Quanto custa?
E nos olhares de admiração e alguns outros, a resposta que temos entregado vai além da precificação: é a de mostrar, por exemplo, que os nossos grafismos ou marcas tradicionais “Kamẽ e Kanhru”, tema da exposição deste ano, não são meros rabiscos ou desenhos geométricos, mas sim códigos ancestrais acerca da organização social Kaingang, uma riqueza complexa que não pode ser interpretada sem o conhecimento adequado.
Nossa sorte é que a arte indígena cumpre seu potencial e ajuda a romper barreiras históricas como as nossas no RS, marcadas, por vezes, não só por desencontros, tensões, violência, animosidade, mas recriação, revitalização, empatia, novos começos, oportunidades e conexões. A arte indígena é capaz de trazer outras respostas e temos boas notícias: ela veio para ficar!
Esperamos, em parte, ter respondido o quanto ela custa: valor e preço!
Sônia Kaingang é jornalista indígena independente, membro da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor). Cobre educação, cultura indígena e biodiversidade.
