Casamentos, aniversários, viagens em família e registros da infância guardados há décadas dentro de uma gaveta. Cenas que pareciam perdidas no tempo estão sendo redescobertas por meio da digitalização de fitas de vídeo antigas, serviço oferecido pela Foto Cinerama e pela Universidade de Passo Fundo (UPF), no norte do Estado. O processo permite transformar gravações analógicas em arquivos digitais compatíveis com celulares, computadores, televisores e serviços de armazenamento em nuvem.
Para muitas famílias, a digitalização representa a oportunidade de rever momentos que não eram assistidos há anos. Em alguns casos, as gravações permaneciam esquecidas porque os equipamentos necessários para reproduzi-las desapareceram das residências.
Com o desaparecimento dos videocassetes e de outros aparelhos de reprodução, milhares de gravações familiares acabaram armazenadas em caixas, armários e depósitos, muitas vezes expostas à umidade, poeira e variações de temperatura.
O problema é que o tempo também afeta as fitas. Além do desgaste natural do material magnético, mofo, sujeira e danos físicos podem comprometer a qualidade das imagens e até provocar a perda definitiva do conteúdo.
O trabalho de digitalização exige equipamentos analógicos e cuidados quase que cirúrgicos para a restauração, além de horas de reprodução de conteúdo. O resultado, no entanto, permite que as famílias revisitem momentos especiais, cuidadosamente escolhidos para serem registrados em uma época em que a gravação de vídeos ainda não era acessível.
— Quando nós começamos, nós pensamos no ponto de vista técnico, mas conforme as pessoas foram trazendo os materiais e nos dando um retorno do que elas tinham encontrado, nós vimos que tem uma questão emotiva envolvida, pois são momentos únicos da vida — conta o laboratorista Alison Costella, responsável pelo serviço na UPF.
Universidade de Passo Fundo
Na UPF, fitas que passaram décadas guardadas em armários e caixas ganham uma nova chance de preservar histórias, lembranças e registros. O trabalho é realizado no Laboratório de Tecnologias Audiovisuais, que mantém em funcionamento equipamentos utilizados ao longo de diferentes gerações de alunos e profissionais da comunicação.
O projeto surgiu com o objetivo de recuperar o próprio acervo audiovisual da universidade, composto por gravações produzidas ao longo dos anos e armazenadas em mídias analógicas. A partir da ação, a UPF decidiu ampliar a iniciativa e, em 2025, passou a oferecer a digitalização também para a comunidade.
Antes que o conteúdo possa ser transferido para o computador, as fitas passam por um processo minucioso de recuperação. A primeira etapa envolve a limpeza, a remoção de mofo e sujeiras acumuladas pelo tempo, além da avaliação das condições físicas do material. Quando há danos mais severos, alguns trechos comprometidos precisam ser retirados manualmente para evitar que a deterioração alcance o restante da gravação.
— Algumas fitas apresentam uma camada visível de mofo ou danos na estrutura do casco, como rachaduras e quebras. O problema mais frequente, porém, é o acúmulo de sujeira. Após a limpeza e os ajustes necessários, conseguimos fazer com que elas voltem a circular nos equipamentos sem comprometer o conteúdo — explica Costella.
Depois da restauração física, os técnicos iniciam a digitalização propriamente dita. Nessa etapa, a fita é reproduzida integralmente nos aparelhos originais enquanto o conteúdo é capturado por um computador. O processo exige paciência. Diferentemente dos arquivos digitais atuais, que podem ser copiados em poucos minutos, as antigas gravações precisam ser reproduzidas na mesma velocidade em que foram registradas.
— A fita precisa rodar do início ao fim. O computador vai captando e gravando tudo em tempo real. Isso significa que uma gravação com duas horas de duração levará exatamente duas horas para ser digitalizada — destaca Costella.
Desde que o serviço foi aberto ao público, o laboratório já recebeu acervos inteiros para recuperação. Um dos trabalhos mais extensos envolveu cerca de 90 fitas de um único cliente e demandou entre dois e três meses de trabalho até a conclusão.
Além das tradicionais fitas VHS, o laboratório também realiza a recuperação e digitalização de materiais nos formatos Betacam e Mini DV, bastante utilizados por emissoras de televisão e cinegrafistas ao longo das últimas décadas, além de fitas cassete de áudio. Embora a procura varie ao longo do ano, os responsáveis pelo laboratório observam um interesse crescente de famílias que desejam preservar registros antigos antes que o desgaste das mídias torne as imagens irrecuperáveis.
Foto Cinemara
Edenílson José dos Santos, conhecido como Juca, trabalha com vídeo em Passo Fundo desde o final dos anos 1980. No início, ele realizava a gravação de eventos com uma filmadora mini-DV, mas pouco depois ele realizou a migração para formatos digitais.
Ao longo dos anos de atuação, ele passou a ofertar o serviço de digitalização, considerado um “extra” no orçamento da empresa de fotografia e vídeo.
— A maioria dos materiais que eu recebo são fitas de família, com registros de formaturas, casamentos, aniversários e outros eventos, além de vídeos feitos em casa, registrando momentos dos filhos e das crianças —relata Juca.
No entanto, em alguns casos, as fitas VHS também eram utilizadas para gravar o que estivesse passando na TV. Quando encontra essas gravações, Juca alerta aos clientes sobre o conteúdo da fita para que decidam se querem seguir com a digitalização.
— Normalmente, as fitas gravavam até seis horas, então tem novela, filme, muita coisa. Por isso, eu digo para as pessoas: “Isso aqui são programas de TV”. Aí, a maioria não faz a digitalização — explica.
Para realizar a digitalização, ele conecta um aparelho de VHS a um reprodutor de DVDs, gravando o conteúdo das fitas em DVD. Em seguida, ele utiliza um programa no computador para digitalizar o conteúdo do DVD. A gravação é entregue aos clientes tanto em DVD quanto em pen drive.
Além disso, ele também realiza a recuperação de outros formatos, incluindo Mini-DV. Nesse caso, é preciso levar também a câmera para a realização do serviço.
