
A floração dos ipês já muda a paisagem das principais avenidas de Passo Fundo, no norte do Estado, mesmo com a primavera ainda a algumas semanas de distância. A presença das flores nesta época, no entanto, não significa necessariamente que a estação esteja chegando mais cedo: no Rio Grande do Sul, a floração dos ipês durante o inverno faz parte do ciclo natural dessas espécies.
Segundo o biólogo e engenheiro agrônomo Jaime Martinez, professor de Silvicultura e Ecologia de Floresta da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul, o calendário de floração varia conforme a espécie:
— O ipê-roxo costuma florescer primeiro, ainda no fim de julho e ao longo do mês de agosto. Já os ipês-amarelos começam a aparecer cerca de 15 a 30 dias antes da primavera. No Rio Grande do Sul, os ipês já costumam florescer durante o inverno.
Depois do solstício de inverno, em 21 de junho, os dias passam gradualmente a ficar mais longos. Esse aumento na quantidade de luz funciona como um sinal ambiental para muitas espécies iniciarem a floração.
A temperatura também influencia o processo, mas não é o único fator determinante. Conforme Martinez, se ela fosse o principal gatilho, as oscilações de temperatura registradas durante o inverno teriam um impacto maior sobre o calendário de floração.
Floração de inverno ajuda a alimentar fauna

A floração dos ipês durante o inverno também tem importância para a fauna. Nos meses de frio, há menor disponibilidade de flores e, consequentemente, menos alimento para espécies como abelhas e beija-flores.
— O inverno é muito pobre em floradas das nossas espécies florestais. Então os ipês acabam dando uma contribuição muito importante na conservação dessa fauna. O papagaio-charão é um dos que, com o fim da temporada do pinhão, passa a consumir as gemas das flores do ipê-amarelo — explica o biólogo.
Apesar da floração neste período estar dentro do comportamento esperado, ainda não é possível afirmar se os ipês estão florescendo mais cedo do que no passado.
Uma pesquisa da UPF acompanha a época de floração e frutificação de cerca de 20 espécies florestais, incluindo os ipês. A expectativa é que os primeiros resultados sejam divulgados daqui a cinco anos, como adianta o professor Martinez:
— Quando nós fecharmos um ciclo de 10 anos, a gente vai poder avaliar com melhor certeza se o ipê está antecipando ou não a sua floração. Mas ainda estamos na metade, então não podemos nos precipitar — finaliza.


