As chuvas acima da média registradas nos últimos meses em Passo Fundo, no norte do Estado, voltaram a mostrar um problema constante na cidade: a pouca capacidade de escoamento da água.
Alagamentos e rios fora do leito causam transtornos para os moradores da cidade reacenderam o debate sobre a drenagem urbana e preparação para eventos climáticos cada vez mais intensos.
Em diferentes bairros, a preocupação aumenta sempre que a previsão indica volumes elevados de chuva. Uma das pessoas afetadas foi a dona de casa Lúcia Beltrame, que reside no bairro Victor Isler. Em julho, quando o Rio Passo Fundo saiu do leito, a água invadiu a residência onde ela mora e obrigou a família a deixar o imóvel. Segundo ela, os prejuízos causados pela cheia ainda vistos no dia a dia.
— Foi um susto muito grande. O rio passou a encher, encher, encher. A noite veio e ele continuou subindo. A gente não sabia o que fazer. Tenho coisas dentro de casa que estragaram bastante. O susto foi grande. E não aconteceu só comigo — relembra.
Chuva acima da média
Os dados meteorológicos ajudam a explicar os transtornos enfrentados pela população.
Em agosto, Passo Fundo registrou mais de 140 milímetros de chuva, volume acima da média histórica para o mês. Já em julho, foram mais de 316 milímetros de precipitação. Durante o período mais crítico, o Rio Passo Fundo chegou a ficar 3,59 metros acima do nível normal.
Além do Rio Passo Fundo, pelo menos outros seis cursos d'água atravessam o município. Eles fazem parte do sistema responsável por conduzir o escoamento das águas das chuvas.
Para o agrometeorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha, o cenário está relacionado ao comportamento do El Niño.
— Todos os indícios dos grandes centros de previsão climática do mundo apontam para um El Niño ativo, que pode ser muito forte e permanecer atuante até o começo de 2027 — afirma.
De acordo com a professora de Engenharia Civil da Universidade de Passo Fundo (UPF), Simone Fiori, as mudanças climáticas têm alterado significativamente o comportamento das precipitações, criando dificuldades para estruturas projetadas décadas atrás.
— As drenagens mais antigas foram calculadas e executadas com base em padrões históricos de chuva do passado. Hoje, o regime hidrológico já é diferente — explica.
A especialista destaca que o crescimento urbano também aumentou a demanda sobre os sistemas de drenagem e defende planejamento específico para enfrentar os novos desafios, como uma Plano Diretor de Drenagem Urbana, que trata especificamente do tópico.
Segundo Simone, soluções conhecidas como infraestrutura verde podem ajudar a reduzir os impactos dos eventos extremos.
— Quanto mais permeabilidade existir no solo urbano, mais a água deixará de escoar pela superfície e passará a infiltrar. Jardins filtrantes e áreas permeáveis são exemplos de alternativas que podem contribuir para esse processo — afirma.
O que diz a prefeitura
A prefeitura de Passo Fundo informa que possui planos de macro e microdrenagem, utilizados para orientar obras e intervenções relacionadas ao escoamento das águas da chuva.
Esses estudos servem de base para definir prioridades e investimentos na área. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico mostram que mais de 96% dos municípios da Região Sul não possuem plano diretor específico de drenagem urbana.
A administração municipal também afirma que mantém serviços de limpeza e manutenção da rede de drenagem e realiza obras voltadas à redução dos riscos de alagamentos.



