
A emissão de Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) registra um crescimento em Passo Fundo, no norte do Estado, entre janeiro e junho de 2026. Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran-RS) mostram que 3.469 habilitações foram emitidas no período, ante 2.034 documentos expedidos no mesmo período de 2025.
O aumento foi superior à média observada no Rio Grande do Sul, onde a alta registrada no período ficou em 44%. A principal responsável pelo crescimento foi a categoria B, destinada à condução de carros. Somente nos primeiros sete meses do ano foram emitidas 2.765 carteiras nessa categoria, volume 82% superior ao registrado no ano anterior.
Para o diretor do CFC Viacerta, Paulo Bica, os números refletem diretamente as mudanças implementadas pelo governo federal no processo de obtenção da habilitação. Segundo ele, as alterações facilitaram o acesso à CNH.
— As mudanças trouxeram mais flexibilidade para que as pessoas tivessem acesso à habilitação. Houve redução dos custos e também mudanças importantes no sistema de avaliação prática. Hoje o aluno não faz mais algumas etapas que antes eram obrigatórias. Isso acaba tornando a prova mais acessível e contribui para aumentar os índices de aprovação — afirma.
Aprovação cresce
O índice de aprovação nas provas da categoria B chega a aproximadamente 70% neste ano. O percentual é em relação às 2.303 provas realizadas até agora em 2026. Em comparação, durante todo o ano de 2025, quando foram aplicadas 5.425 provas, a taxa de aprovação ficou em 49%.
Segundo Paulo Bica, algumas provas realizadas pelo CFC Viacerta atingiram índices inéditos.
— Já tivemos quatro ou cinco semanas com 100% de aprovação. Antes disso, praticamente era impossível falar em uma prova com todos os candidatos aprovados — relata.
Outra mudança significativa está relacionada à formação prática dos candidatos. Conforme relatos, muitos alunos optam pe mínimo de aulas exigidas para dar sequência ao processo de habilitação.
— O aluno normalmente chega e escolhe apenas as aulas obrigatórias. Mas quando ele começa a dirigir, percebe que aquilo não é suficiente e acaba contratando mais horas de treinamento — afirma Paulo Bica.
Preocupação com formação dos motoristas
Se por um lado o aumento das aprovações é comemorado por parte dos candidatos, por outro gera preocupação entre profissionais da área. Para o diretor, a formação dos novos motoristas pode ser prejudicada pela redução do tempo de preparação.
— Nosso papel é formar condutores. Estamos percebendo que muitos alunos chegam à aprovação com menos experiência prática. Eles podem até saber manusear o veículo, mas dirigir em um trânsito intenso exige muito mais do que isso. Existe preocupação com o que pode acontecer futuramente — afirma.
Segundo ele, algumas situações observadas no trânsito já indicam dificuldades relacionadas à falta de prática.
— A gente vê pessoas com dificuldade para trocar de faixa, interpretar situações do trânsito e reagir corretamente a determinadas circunstâncias. Isso pode aumentar os riscos de acidentes — observa.
Apesar dos dados do Detran apontarem crescimento expressivo na emissão de habilitações, a realidade percebida pelos centros de formação não é unânime.
A diretora-geral do CFC Autotec, Carine Cardoso, afirma que os dados observados pela empresa mostram uma realidade diferente. Segundo ela, a procura pelos serviços do centro de formação registra queda no primeiro semestre.
— Comparando um ano com o outro, nós tivemos redução. Não apenas na primeira habilitação, mas em outros serviços que deixaram de ser realizados da mesma forma após as mudanças nas regras federais — afirma.
Ela destaca que processos ligados à renovação automática e emissão de CNHs definitivas passaram a demandar menos atendimento presencial nos CFCs. As mudanças também provocaram reflexos financeiros.
— Muitas emissões passaram a ocorrer automaticamente. Isso reduziu o volume de serviços e afetou diretamente o setor. Tivemos uma redução de quase 30% do quadro de funcionários. Isso afetou a estrutura financeira e toda a organização do setor — explica.
Ela também contesta a ideia de que houve uma corrida massiva pela primeira habilitação após as alterações.
— Muitas pessoas procuraram os CFCs porque acreditavam que o processo era totalmente gratuito. Quando recebiam a orientação correta e entendiam que várias etapas continuam sendo pagas, a procura não se concretizava da forma que se imaginava — relata.
Novas regras
As mudanças recentes transformam quase integralmente o processo de formação de condutores e o funcionamento dos CFCs. Na prática, o modelo em vigor desde 5 de janeiro prevê:
- Fim da obrigatoriedade das aulas em autoescolas: o candidato não é mais obrigado a realizar todo o processo formativo dentro de um CFC
- Redução das aulas práticas obrigatórias: a carga mínima cai de 20 para 2 horas-aula
- Curso teórico gratuito e digital: o conteúdo passa a ser disponibilizado gratuitamente em plataforma federal e aplicativo oficial
- Extinção da carga horária mínima do curso teórico: deixa de existir a exigência formal de horas-aula presenciais ou controladas
- Flexibilização do aprendizado prático: o candidato poderá utilizar veículo particular e contratar instrutor autônomo credenciado, desde que haja regulamentação
- Manutenção das etapas presenciais essenciais: prova prática, exame médico, avaliação psicológica e coleta biométrica seguem obrigatórios e presenciais
- Reprovação sem custo adicional na primeira tentativa: quem não passar no primeiro exame prático poderá refazer a prova gratuitamente
- Fim do prazo máximo do processo de habilitação: hoje limitado a um ano, o processo deixa de ter validade temporal
- Prova prática passa a permitir até 10 pontos: o sistema de avaliação deixa de reprovar candidatos com mais de três pontos negativos e passa a permitir até 10 pontos
*Sob orientação e supervisão do jornalista Vitor Zuccolo.





