
Iniciado há cerca de dois séculos, na região do Boqueirão, o povoamento de Passo Fundo, no norte do Estado, é o ponto de partida de uma trajetória de grandes transformações, mas também de fatos inusitados, que se destacam na história do município. Na celebração do aniversário de 169 anos de Passo Fundo, celebrado nesta sexta-feira (07), confira curiosidades históricas sobre o município.
Emancipação
Atualmente considerada uma das principais economias do estado, com uma população de mais de 214,8 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Passo Fundo era inicialmente um distrito de Cruz Alta. A emancipação do município ocorreu em 1857, como forma de viabilizar a administração do território.

— Passo Fundo era um distrito extremamente grande e complicado de administrar em virtude das interações com as populações indígenas, que estavam presentes nesse território, então ele gerava muito problema e pouco retorno econômico para Cruz Alta — explica o presidente do Instituto Histórico de Passo Fundo, Djiovan Carvalho.
Para resolver a questão, o governo estadual criou o município de Passo Fundo, um território de mais de 24 mil quilômetros quadrados. Em um primeiro momento, sete vereadores representavam cada distrito do município. Eles se reuniam de duas a três vezes por ano em sessões deliberativas. Em alguns casos, eles eram eleitos com o próprio voto, considerando o baixo número de cidadãos autorizados a votar.
Cemitério na área central
O primeiro cemitério de Passo Fundo foi instalado em uma área que hoje pode ser considerada inusitada, na região onde está localizada a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, no Centro da cidade.
Para entender essa questão, é preciso retornar ao povoamento de Passo Fundo, que ocorreu no final da década de 1820. Para que esse povoado fosse reconhecido oficialmente, foi preciso construir uma capela.
Nomeada de Nossa Senhora da Conceição Aparecida do Passo Fundo, ela foi instalada em uma colina, onde hoje está localizado o edifício "Nossa Senhora Aparecida", no cruzamento da rua Moron com a rua Coronel Chicuta.
O cemitério foi instalado aos fundos dessa capela, onde hoje encontramos a Catedral e a esquina da rua Independência com a avenida General Neto. Ele foi mantido nesse local durante 80 anos, ocupando uma área considerável do município.
No entanto, ao longo dos anos, a cidade teve um aumento em direção à capela e, portanto, do cemitério. A primeira mudança ocorreu em 1890, com a construção da Catedral, considerando que a capela original já estava em ruínas.
Já mudança da localização do cemitério veio com a chegada da linha férrea. Com a instalação da Gare, a Avenida General Neto foi aberta para ligar a estação à principal via de Passo Fundo. Com isso, o cemitério era uma das primeiras visões da cidade para quem chegasse ao município.
— Passo Fundo estava passando por um momento de expansão urbana, em que o cemitério, por uma questão sanitária, não poderia mais estar no meio da população, mas também por uma perspectiva de embelezamento urbano — ressalta Carvalho.
Os sepultamentos no local foram proibidos em 1902, com a inauguração do Cemitério Municipal Vera Cruz. Esse local recebeu, além dos novos sepultamentos, os corpos que estavam sepultados no cemitério antigo.
Assassinato de Coronel Chicuta na atual Avenida Brasil
Em 1892, um assassinato em plena rua do Comércio, atual Avenida Brasil, marcou a história de Passo Fundo. Conhecido por nomear uma importante rua da cidade, Coronel Chicuta foi um militar que serviu na guerra do Paraguai e se estabeleceu no município.
Após a Proclamação da República, ele passou a liderar o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) em Passo Fundo. Nesse período, o país vivia um momento político turbulento. No Estado, sucessivos governos de curta duração se alternavam no poder.
Em 17 de junho de 1892, Júlio de Castilhos, líder do PPR, tomou o poder do Estado e alertou aos membros do partido para que assumissem também os governos municipais.
— Naquele 17 de junho, só dois municípios no Rio Grande do Sul foram oposição a essa tomada de poder pelos Republicanos: Passo Fundo e Bagé — aponta Carvalho.
De acordo com os relatos, Coronel Chicuta, que estava na fazenda de seu irmão, recebeu o aviso de Júlio de Castilhos para tomar o poder e se encaminhou para a região central de Passo Fundo.
No entanto, no dia seguinte, enquanto ele se dirigia para sua casa, na atual Avenida Brasil, ele recebeu voz de prisão de um grupo de pessoas, mas se recusou a acatar a ordem.
— Esse grupo de pessoas começa a persegui-lo pela Avenida Brasil a cavalo. Ele usou de uma série de manobras para tentar desviar dessas pessoas, mas acabou recebendo um tiro, mais ou menos, onde hoje está localizada "A Praça da Mãe", no Boqueirão — conta o historiador.
Após a morte, os assassinos ainda teriam desfilado com o cavalo de Coronel Chicuta pelas ruas de Passo Fundo para demonstrar a continuidade no poder.
De acordo com Djiovan, o grupo atuava a mando do delegado de polícia, Antônio José da Silva Loureiro, que estava a mando do líder federalista Antônio Ferreira Prestes Guimarães. O inquérito da morte foi aberto pelos federalistas, mas o resultado foi considerado "inconclusivo", sem apontar culpados.
— A morte do Coronel Chicuta é emblemática porque antecipa a guerra civil que aconteceria no Estado em quase oito meses. Ela mostra como estavam os ânimos dos adversários políticos naquele momento, que estavam dispostos a pegar em armas e combater os seus opositores — explica.
Passo Fundo fica sitiada durante oito dias por grupo de Carazinho
Na Revolução de 1923, um grupo do então distrito de Carazinho tentou tomar Passo Fundo e manteve a cidade sitiada durante oito dias.
O movimento teve como origem a oposição à eleição de Borges de Medeiros para um quinto mandatado.
— Esse grupo se organiza em Carazinho, pega em armas e começa um movimento de articulação para a tomada do poder de Passo Fundo. Eles proclamam Carazinho como Assisópolis, fazendo uma referência ao Assis Brasil — explica Carvalho.
O grupo não consegue adentrar no município, mas impende a passagem do trem, afetando o abastecimento de produtos, além de cortar a linha do telégrafo, impedindo a comunicação.
— Passo Fundo fica sitiada durante oito dias, mas consegue impedir o avanço desses grupos que queriam tomar o poder — relata o presidente do IHPF.
O bloqueio é rompido por um trem encouraçado, protegido com sacos de areia. Os revolucionários então decidem sair da região de Passo Fundo e tomam Erechim para impedir a passagem do Exército Nacional.
Passo Fundo como sede do governo estadual
Após o golpe militar de 1964, em 31 de março, Passo Fundo foi estabelecida como capital do Estado durante três dias.
A mudança da capital foi uma estratégia do novo governo militar, que temia uma reação armada ao movimento, começando por Porto Alegre. Chamada de "Operação Farroupilha", a transferência da sede do governo estadual trouxe toda a equipe do governo para Passo Fundo.
A escolha do município é justificada pela presença do aeroporto, de dois quartéis e pela proximidade entre o então prefeito e o governador do Estado.
— Havia toda uma estrutura, além da posição geográfica de Passo Fundo privilegiada, para que houvesse meios de sair do Estado rapidamente, caso acontecesse um processo revoltoso —explica Carvalho.
No entanto, como João Goulart se recusou a iniciar um confronto armado contra a golpe, a mudança da capital para Passo Fundo deixou de ser necessária e o governo retornou a Porto Alegre.



