
Daiane Luiza Martins, 40 anos, passou a viver com um projétil alojado em seu pescoço. Desde que sofreu uma tentativa de feminicídio, em dezembro de 2025, em Soledade, a violência mudou seu rosto e sua voz.
— Vou ter que conviver com a bala — afirmou.
Dos quatro tiros disparados contra a mulher, um a atingiu no rosto e a bala se partiu em duas. Uma parte permanece em seu corpo e não pode ser removida. Após dias em coma, Daiane acordou sem audição no ouvido esquerdo e com uma paralisia facial que causa dores frequentes, dificuldade para comer e risco de perda da visão.
— Os médicos disseram que não tem como tirar (a bala), porque ou eu fico muda, ou eu morro. É um local sensível. Eu sinto muita dor e perdi o paladar, tudo que tento comer é amargo — relata.
Parte da solução para aliviar as dores e restaurar funções motoras é pela cirurgia de nervo periférico, agendada para este sábado (23). O procedimento, delicado e caro, levou Daiane a fazer uma campanha de arrecadação para levantar o valor necessário. O objetivo é custear a cirurgia, fisioterapia e outros gastos médicos. Doações podem ser feitas neste link.
— E tem o psicológico, que ninguém vê, né? Mas é muito triste. Chegar em casa, você de carro, no portão, tu revive tudo, lembra de tudo. Eu sempre fui muito comunicativa, sempre gostei de sorrir, e hoje pra sorrir, sabendo que só uma parte do teu rosto funciona, é complicado — lamenta Daiane.
O mandante do ataque, segundo a denúncia do Ministério Público aceita pela Justiça, foi o ex-marido da vítima Newilson Dalbosco de Castro, 39 anos, conhecido como Nil. Ele teria contratado um executor para matar Daiane.
Além dele, Bruno Chaves da Silva, 24 anos, foi denunciado por participar da ação. Conforme o MP, ele conduziu de carro o autor dos disparos até a casa da vítima. O executor não foi identificado até o momento.
"Só pensei na minha família"
No dia do ataque, Daiane trabalhou normalmente, levou o carro ao mecânico, que devolveu o veículo mais tarde, e passou na farmácia antes de ir para casa. Chuviscava quando ela manobrou para acessar o portão, às 22h.
Câmeras de monitoramento instaladas pela própria vítima registraram a ação dos criminosos. Dois homens, motorista e atirador, aguardaram a chegada da mulher por quase uma hora dentro de um carro.
— Abri o portão da casa e escutei um estouro muito grande. Quando olhei para o lado, tinha uma pessoa armada, de máscara. Ele atirou no meu rosto, e nisso eu só escutava os gritos da minha sobrinha de oito anos, que estava lá em casa, e pensava na minha mãe, meu neto, minha filha. Só pensei na minha família — relembra Daiane.
A violência extrema foi a última etapa de um relacionamento que, segundo a vítima, era abusivo há anos. Quando sofreu o ataque, a mulher tinha uma medida protetiva de urgência em vigor contra Newilson.
— Ele me perseguia, tinha raiva de mim. Ele me seguia de carro, quando eu bloqueava, ele comprava um chip novo pra me ligar, até que teve um dia que foi até meu trabalho, me xingou e pegou meu celular. Depois ele quebrou toda a tela e me devolveu. Nesse dia, fiz um boletim de ocorrência — relembra.
Para Daiane, uma das partes difíceis foi se desvencilhar do envolvimento emocional, fator que camuflou comportamentos agressivos:
— Quando a gente está envolvida emocionalmente, não acredita que a pessoa seja capaz de fazer uma coisa dessas. Você está vivendo o abuso, mas não enxerga que pode encerrar aquilo. Hoje eu vejo que sim.
Relembre o caso
Daiane Luiza Martins foi baleada diversas vezes, inclusive na cabeça, enquanto manobrava seu carro na garagem de casa, no bairro Expedicionário, em Soledade, às 22h do dia 10 de dezembro de 2025.
O autor dos tiros estava na carona de um Fiat Palio vermelho, parado próximo à residência. Câmeras de segurança registaram o momento que os suspeitos param o carro na rua, às 21h11min, e aguardam quase uma hora até a chegada da mulher.
Quando ela entra com o carro na garagem, o autor atira diversas vezes e chega a abrir a porta do veículo para disparar contra a vítima. O executor contratado estava encapuzado e fugiu em seguida.
Daiane tinha medida protetiva contra Newilson desde 24 de outubro de 2025 e havia instalado as câmeras na residência para se proteger.
O homem está preso desde 30 de dezembro na Penitenciária de Florianópolis (SC) por descumprimento de medida protetiva. Uma nova ordem de prisão, por tentativa de feminicídio, foi executada em 14 de abril, no presídio onde ele está recolhido.
Em nota (leia abaixo na íntegra), o advogado de Newilson, Robson Lazzari, afirma que a defesa vai recorrer da decisão que decretou a sua prisão preventiva, e que os outros dois homens citados no caso são "desconhecidos de Newilson".
Nota da defesa na íntegra
"Ao mesmo tempo em que se solidariza com a vítima, desejando pronta recuperação, a defesa de NEWILSON informa que irá recorrer da decisão que decretou a sua prisão preventiva.
Na data do crime o casal estava separado, e Newilson já estava morando em Santa Catarina. Imagens de câmeras de segurança foram disponibilizadas à Polícia, comprovando que Newilson recebia uma pizza em Florianópolis no exato momento em que a vítima sofreu tentativa de homicídio em Soledade/RS.
Em recurso que será feito ao Tribunal de Justiça, será confrontada a versão da acusação com alguns vídeos anexados no inquérito, de outros dois homens, desconhecidos de Newilson, circulando com o veículo utilizado na empreitada criminosa, próximos à casa da vítima. A defesa questionará quem são estes homens e por que não foram presos até o momento".

