
Até o início da década de 1990, o volante de uma escavadeira ou o comando de uma colheitadeira eram espaços proibidos para as mulheres brasileiras. A legislação vigente e o machismo, ainda mais presente na época, restringiam oportunidades.
Décadas depois, essa barreira ficou no passado para mulheres do interior gaúcho, como é o caso da primeira operadora de máquinas pesadas da prefeitura de Marau. Aos 32 anos, Jéssica Nunes assumiu a função após passar em concurso público.
— Na verdade não foi uma escolha minha, não escolhi essa profissão, acho que foi essa profissão que me escolheu. Nunca tive medo de trabalhar com as máquinas — afirma.
Moradora de Passo Fundo, Jéssica trabalha na cidade vizinha operando retroescavadeira, rolo compactador e moto niveladora, sendo a única mulher do seu ambiente de trabalho.
A profissional tem vocação similar a de outras 20 mulheres que participaram do curso Mulheres Operadoras de Máquinas Pesadas, realizado pelo Sindicato da Indústria da Construção de Obras (Sicepot) do RS, em Passo Fundo, em 2025.
— A qualificação de mulheres para uma atividade que hoje é exercida quase que 100% por homens é extremamente importante para ampliar a diversidade e suprir a demanda por mão de obra no setor — destaca a diretora executiva da entidade, Angela Melos.
Trabalhadoras relatam preconceito
O curso possibilitou mais um passo na carreira de Vanessa Quintana, 35 anos, atualmente motorista de carreta. Segundo ela, a formação foi uma realização, e apesar de lidar com preconceitos por ser mulher em um ambiente masculino, nada a impede de seguir o sonho:
— Eu amei muito. Fiz muita amizade, foi uma baita experiência. Sendo sincera, nunca senti medo das máquinas pesadas, eu dirijo carreta de lenha. Estou tentando um emprego na área do curso.

A operadora Jéssica também relata que ainda precisa enfrentar comentários machistas na área. Ela relembra de situações constrangedoras vividas durante atendimentos fora da empresa.
— Já teve vezes em que a equipe foi realizar algum serviço em propriedades, e os moradores viam que era uma mulher e logo perguntavam se não era melhor um operador, um homem. Mas eu vou driblando, mostro minha competência — reitera.
Constituição abriu portas
Leis e decretos vigentes desde a década de 1930 impediam formalmente que o público feminino ocupasse cargos na operação de máquinas pesadas. A justificativa da proibição era a "proteção à maternidade": a lei associava a vibração das máquinas e o esforço físico ao risco reprodutivo, criando um bloqueio legal que durou quase 50 anos.
A principal barreira estava no Artigo 387 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943. O texto proibia expressamente o trabalho feminino em ambientes perigosos ou insalubres, o que incluía canteiros de obras, minas e o manejo de aparelhos de transmissão.

Em cidades como Passo Fundo, o Código de Posturas e o Estatuto dos Servidores Municipais antigos costumavam replicar o texto federal. A proibição não era explícita, mas estava lá: "a admissão para cargos que exijam esforço físico ou risco seguirá as normas de proteção ao trabalho feminino".
A mudança real começou com a Constituição de 1988, que estabeleceu a igualdade de direitos. No entanto, o Ministério do Trabalho só proibiu o anúncio de vagas de emprego com restrição de sexo em 1991.


