
Diante de datas simbólicas como o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, flores e homenagens tornam-se supérfluas ante a luta enfrentada por quem é vítima de violência. A batalha, contudo, também faz parte da rotina diária de mulheres que atuam no combate às agressões e na rede de proteção.
Quando feito de uma mulher para outra, o atendimento facilita a confiança e transforma a denúncia em acolhimento. Esse amparo é parte do trabalho da soldado Sílvia de Lima Zin, policial militar da Patrulha Maria da Penha em Passo Fundo.
— Não é só cumprir protocolo. A gente entra na casa de mulheres que já passaram por muita coisa, e antes de qualquer procedimento, eu também sou mulher. Às vezes, elas só precisam ouvir que fizeram a coisa certa, que não estão sozinhas — relata.
Os números mostram a dimensão do desafio. Em janeiro e fevereiro deste ano, Passo Fundo registrou 505 boletins de ocorrência de violência contra a mulher, mantendo a média de 2025. A repressão qualificada das forças de segurança resultou na prisão de 35 agressores até o momento.
Primeiros passos
Enquanto a patrulha fiscaliza as denúncias, o primeiro passo muitas vezes acontece no atendimento jurídico e psicossocial. É ali que chegam mulheres em dúvida, com medo de represálias ou sem saber o que acontece depois de registrar ocorrência.

— Muitas resistem em buscar ajuda porque têm receio de que a medida protetiva e a denúncia não assegurem proteção. Por isso, quando elas fazem a denúncia, não podem sair dali sem saber qual deve ser o próximo passo — afirma a coordenadora do Projur Mulher e Diversidade da Universidade de Passo Fundo (UPF), Josiane Petry.
Segundo ela, a violência costuma começar de forma silenciosa, o que adia a procura por ajuda. A maioria das mulheres busca apoio quando o ciclo já se agravou:
— Via de regra, a primeira agressão não é física. São ameaças, humilhações, controle. Quando nos procuram, as situações já estão estabelecidas e mais graves.
Na esfera criminal, o trabalho de investigação dos casos fica a cargo da delegada Rafaela Bier, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) de Passo Fundo. Ela explica que o trabalho preventivo e educativo é um divisor de águas que pode interromper o ciclo da violência.
— Embora a gente saiba que a atividade precípua seja uma atuação repressiva, um inquérito policial qualificado, o cumprimento estratégico de prisões, mandados de busca e apreensão, também sabemos que o verdadeiro impacto social transborda as paredes da delegacia — afirma.
Prevenção e compromisso do Estado
Na contramão do RS, Passo Fundo não registra feminicídios desde julho de 2024. O cenário reforça a importância do trabalho das mulheres que atuam na luta contra a violência.
— Na prática, o trabalho é acompanhar quem já teve a coragem de denunciar. Fiscalizamos as medidas protetivas, realizamos visitas periódicas, orientamos e prevenimos — explica Sílvia.
Para quem está na linha de frente, a data de 8 de março serve menos para celebração e mais para reforçar a cobrança por estrutura. Josiane Petry defende que, além do esforço das equipes, é necessário que o poder público se comprometa com ações para o apoio das vítimas:

— A violência contra a mulher, apesar de tudo que se fala, não é uma prioridade dos governos, apesar da responsabilidade com segurança pública, proteção de vítimas e prevenção ser do Estado. O tema é grave, urgente e exige o compromisso da gestão pública com previsão orçamentária para custear e coordenar políticas públicas de transformação social.
Enquanto a transformação não chega, o trabalho segue nas rotinas diárias, em busca do rompimento da violência antes que terminem em estatística.
— Minha motivação é simples: quebrar ciclos. Se o nosso trabalho impedir que uma agressão aconteça, se evitar que uma criança cresça vendo violência, já vale tudo — conclui a soldado Sílvia.



