Foi com os primeiros imigrantes judeus que se instalaram na região do Alto Uruguai que surgiu a ideia inovadora de instalar uma usina de eletricidade onde, atualmente, está localizada a cidade de Quatro Irmãos, no norte do RS. O grupo de colonizadores fundou, em 2 de abril de 1941, a Cooperativa Força e Luz, primeira associação de eletricidade rural do Brasil.
A iniciativa do empreendimento coletivo buscava uma solução para a escassez de energia elétrica, como conta o secretário do Polo de Turismo Judaico de Quatro Irmãos, Sergio Lerrer:
— Havia uma limitação no Brasil naquela época, não existia eletrificação rural. Todos os empreendimentos, comunidades e empregos com potencial de renda eram prejudicados nos meios rurais. Então, a própria comunidade de judeus e não judeus se uniu e criou essa inovação. Na época, era uma verdadeira startup.
As águas do Rio Padre, que cruza a cidade, eram represadas e canalizadas para mover uma turbina que gerava entre 80 e 100 quilowatts por hora. Essa potência era suficiente para abastecer serrarias, moinhos, hospital e comércio.
De acordo com Lerrer, a capacidade da usina de gerar energia elétrica 24 horas por dia possibilitou que a comunidade acelerasse o desenvolvimento econômico.
— Em algum momento do passado, essa colônia judaica de Quatro Irmãos chegou a ter 20 mil pessoas morando, com cinema, teatros, grupos de dança, hotéis. Foi uma área bastante desenvolvida do passado, e um dos gatilhos foi a eletrificação — explica.

Aos 85 anos, Orlando Fantinel, agricultor aposentado, relembra a época em que a cooperativa estava em atividade:
— Antigamente, os primeiros rádios eram todos a bateria. Então, nós que morávamos na colônia e tínhamos um aparelho, levávamos a bateria até a usina para carregar. Uma vez por mês, a gente ia lá, onde havia um dínamo que fazia o carregamento.
Do ponto de vista histórico, a colonização judaica impulsionou o avanço regional, reflete Lerrer.
— Os imigrantes, quer queira ou não, eram empreendedores inovadores. Eles desenvolveram modelos de negócios que ainda não existiam tanto na região como no Brasil, como foi o caso da Cooperativa Força e Luz de Quatro Irmãos — pontua.
Atualmente, as ruínas da usina fazem parte de um roteiro turístico que inclui o Cemitério Israelita e o antigo Hospital Leonardo Cohen.
Em dezembro do ano passado, um projeto de lei que cria a Rota Turística Judaica no Rio Grande do Sul foi aprovado pela Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado. A proposta está em tramitação na Câmara dos Deputados. A rota abrange os municípios de Quatro Irmãos, Jacutinga e Erebango.
— Essa rota é totalmente gratuita e temos um pessoal disponível para fazer acompanhamentos. Mas essa rota está sendo inicialmente introduzida dentro da nossa própria população, pois diversos habitantes do nosso município não conhecem a história e nem a cultura do município — informa o vice-prefeito de Quatro Irmãos, Gilvan Mustchall.
Para melhorar o acesso aos turistas, os governos estadual e municipal firmaram um convênio para o repasse de mais de R$ 798 mil. Esse recurso será destinado para asfaltamento e construção de uma ponte no trecho que leva até a antiga usina.





