
Os aplicativos de carona, que conectam motoristas e passageiros para dividir custos de viagens, têm ganhado espaço em Passo Fundo, no norte do Estado. Levantamento em algumas plataformas mostra que trajetos podem ser até 53% mais baratos do que nas linhas de ônibus tradicionais, mas o serviço levanta questões sobre a segurança dos usuários.
A BlaBlaCar, uma das principais plataformas, registrou um crescimento de 20% em Passo Fundo no último ano, evidenciando a mudança nos hábitos de deslocamento da população. Enquanto passageiros buscam economia e flexibilidade, motoristas dividem a viagem com desconhecidos para reduzir custos com combustível e manutenção.
O músico Jardel Castro, de 42 anos, é um dos passo-fundenses que oferecem carona no aplicativo:
— Já dei mais de 70 caronas e tenho nota 5,9 no aplicativo. Comecei a fazer por indicação de um amigo, sem a intenção de lucro. Para mim, a plataforma ajuda apenas nos custos dos trajetos que faço com frequência por conta da profissão.
O aspecto financeiro é o maior atrativo: buscas no aplicativo revelam que percursos que superariam R$ 100 no transporte coletivo são oferecidos pela metade do preço.
— O Rio Grande do Sul é um dos principais mercados da BlaBlaCar no Brasil e segue apresentando crescimento consistente em todas as frentes da nossa operação. Em 2025, as viagens de carona no Estado cresceram 19% em relação a 2024, refletindo uma operação madura e consolidada, com as caronas plenamente incorporadas aos hábitos de deslocamento dos gaúchos — afirmou a presidente da plataforma, Tatiana Mattos.
Impacto no transporte coletivo
Com o crescimento na busca pelos aplicativos de carona, a Rodoviária de Passo Fundo registrou queda na venda de passagens. Segundo a administração do terminal, entre 2019 e 2021, houve uma redução acentuada de 50,6%. Cerca de 239 mil passageiros deixaram de usar os ônibus interurbanos, reflexo também da pandemia.
No último ano, as vendas voltaram a cair. De 2024 para 2025, a redução foi de 3,56%, o que representa 8.200 passageiros a menos.
Por outro lado, conforme a BlaBlaCar, viagens de carona e de ônibus são complementares, uma vez que a plataforma é perceira de diferentes empresas. Mais de 60% dos novos usuários de ônibus da plataforma vêm das caronas, o que corrobora a proposta multimodal.
Segurança nos aplicativos de carona

Para os usuários dos aplicativos, as conexões formadas durante as viagens representam outro ponto positivo. Jardel Castro relata que, por meio da plataforma, conheceu uma de suas melhores amigas.
— Eu faço muita amizade usando o BlaBlaCar, conheço várias pessoas. A mais positiva foi a Alice, que acabou virando a tia Alice para minha filha — disse.
Contudo, algumas experiências são negativas e geram discussão sobre a falta de segurança durante as corridas.
— Já passei por uma situação de risco. Nas primeiras viagens que realizei, fui para Santo Ângelo e parei em Ijuí. Lá um rapaz solicitou carona pelo aplicativo e me pediu para ir buscá-lo na casa dele, porque estava com o pé quebrado. Quando o rapaz embarcou no meu carro, ao sair da casa dele, a polícia estava à espera e abordou os ocupantes. Pelo que eu entendi, ele havia fugido um dia antes e estava com o pé quebrado justamente porque a polícia o havia perseguido com uma moto — relembrou.
O motorista foi abordado de forma agressiva e quase preso. Apesar do constrangimento, ele disse que não julga a atuação dos policiais, pois os agentes não sabiam quem ele era naquele momento. A situação foi esclarecida apenas quando o motorista apresentou os registros das conversas na plataforma de carona.
A BlaBlaCar disse que não foi informada sobre o incidente relatado pelo condutor, mas esclarece que todas as interações entre os membros só podem ser feitas dentro da plataforma, desde o contato inicial entre condutor e passageiro.
Casos de violência e assédio
Uma pesquisa realizada no último ano pela plataforma GigU, que reúne motoristas de diferentes aplicativos, destaca a precariedade da segurança. Dos mais de mil profissionais ouvidos em todo o Brasil, 59,1% relataram ter sofrido violência ou assédio e apenas 3,4% afirmam se sentir totalmente seguros. Além disso, 77,3% acreditam que as plataformas não se preocupam com o bem-estar dos motoristas.
Se a experiência de Castro evidencia os riscos que homens podem enfrentar, para as mulheres a preocupação com a segurança é ainda maior. Um levantamento da OLX, realizado no último ano, indica que 54% das mulheres se sentem inseguras ao usar aplicativos de transporte.
Relatos de assédio e a necessidade de reorganizar trajetos são comuns, impulsionando a busca por medidas de segurança. Entre as estratégias preventivas adotadas estão: compartilhar o trajeto em tempo real com familiares ou amigos, selecionar apenas motoristas com boas avaliações e, quando disponível, optar por corridas exclusivas para passageiras.
Este cenário se reflete nas próprias plataformas. Alternativas como aplicativos exclusivos para mulheres e recursos de segurança internos (compartilhar rota, botão de pânico) já são realidade. A própria BlaBlaCar, por exemplo, oferece uma opção exclusiva para passageiras.
Dicas de segurança ao usar aplicativos de carona
Para usar aplicativos de carona com segurança, verifique sempre o perfil, foto, placa e modelo do veículo antes de embarcar. Compartilhe sua rota em tempo real, prefira sentar no banco de trás e mantenha toda a comunicação e pagamentos dentro da plataforma. Veja outras orientações importantes:
- Dados do veículo e do motorista: observe se as informações exibidas no aplicativo correspondem à placa, cor, modelo e nome do motorista;
- Identificação: aguarde o motorista chamar pelo seu nome antes de entrar no veículo;
- Locais seguros: evite solicitar o aplicativo em ruas pouco movimentadas. Espere o transporte onde há movimentação de pessoas ou próximo a locais públicos e movimentados;
- Assédio e comportamentos estranhos: em casos de assédio sexual, moral, mudança de caminho sem aviso prévio ou maus-tratos, entre em contato com a empresa utilizando a própria plataforma.
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