
Segundo a investigação da Polícia Civil, mais de 200 pessoas foram vítimas das empresas de Passo Fundo que fraudavam consórcios. A maioria era escolhida pelos golpistas através das redes sociais e tinha em comum o fato de precisar de crédito rápido.
Na manhã desta quinta-feira (4), 15 pessoas foram presas e seis empresas foram alvo de busca e apreensão durante a Operação Consortium II. A estimativa é que elas comercializaram R$ 3 bilhões em consórcios apenas neste ano.
Foram cumpridos 31 mandados de busca e apreensão. Conforme a polícia, ao menos 130 vítimas foram identificadas e acionaram a Justiça para reaver os valores.
É o caso de uma moradora de Passo Fundo que, por causa do golpe, acumula mais de R$ 3 milhões em dívidas. Ela queria financiar um apartamento e buscou um consórcio.
— O valor do imóvel era R$ 409 mil e eu tinha só R$ 200 mil, então um amigo aconselhou a procurar um consórcio. O vendedor me fez uma proposta: um contrato de R$ 800 mil, onde 50% do lance eles davam embutido — contou ela, que preferiu não se identificar.
A opção apresentada foi pagar R$ 44 mil para entrar direto em um grupo fechado do consórcio, garantindo a contemplação antecipada. A passo-fundense assinou o contrato para ser contemplada já no primeiro mês.
— Só que no dia da assembleia, uma atendente me mandou mensagem: "Quer dar algum lance livre na carta?" e eu disse sim, quero dar R$ 120 mil — relembra.
A partir daí, ela entrou no grupo, recebeu as boas-vindas e, então, começaram os pedidos de documentação e novas orientações: adiantar R$ 117 mil no pagamento de um boleto para reduzir as parcelas do consórcio. Depois, o gerente do consórcio pediu que ela assinasse 11 documentos.
— Eram mais cartas de crédito, que estavam contratando sem o meu consentimento. Ele me colocou em mais grupos, fora o que eu já tinha assinado, totalizando R$ 3,8 milhões em consórcio, sendo que eu precisaria da carta de R$ 400 mil pra compra daquele imóvel — lamenta.
A moradora de Passo Fundo nunca foi contemplada. Hoje, com uma dívida milionária, ela ficou sem as economias acumuladas durante a vida inteira e luta para limpar o nome e reaver o dinheiro perdido no esquema.
— Sem casa, sem dinheiro, sem nada. Tô me virando pra pagar aluguel. O dinheiro que antes tava aplicado, que era a herança que a minha mãe deixou pra mim e pro meu filho, tá lá no consórcio. E eles se negam a devolver — desabafa.
Como o esquema funcionava?

A investigação mostrou que o modus operandi dos criminosos seguia um roteiro semelhante: ofereciam empréstimos com juros baixos e pagamento a longo prazo, mas omitiam que se tratavam de consórcios.
No processo, os golpistas prometiam que as vítimas seriam contempladas com o crédito dentro de poucos dias. Com esse argumento, as pessoas pagavam uma entrada pelo valor, mas nunca receberam o dinheiro prometido pelos criminosos.
A maioria das vítimas são produtores rurais já com grandes prejuízos em razão das quebras de safra dos últimos anos. Pessoas com esse perfil eram os principais alvos do grupo, uma vez que buscavam crédito para comprar maquinários e pagar dívidas, por exemplo.
Os golpes eram aplicados há quase uma década, com ramificações pelo RS, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Amazonas e Minas Gerais. A polícia estima um prejuízo de R$ 30 milhões contra as vítimas do esquema.
Vida de luxo

Com o dinheiro das vítimas, os golpistas tinham vida de luxo, com carros importados e viagens para o exterior. Durante a ação, foram apreendidos 37 veículos — incluindo modelos das marcas Porsche, Mercedes, Mini, BMW e Volvo — com valor estimado em R$ 15 milhões.
Também foram encontradas joias e ao menos dois relógios Rolex, estimados em R$ 500 mil cada. Houve ainda o bloqueio de imóveis dos investigados e criptomoedas no valor de R$ 170 milhões.
A investigação indica que, com o dinheiro das vítimas, os criminosos compraram imóveis de luxo no RS e em Santa Catarina. Só dois apartamentos em cidades catarinenses, um em Porto Belo e outro em Balneário Camboriú, são estimados em R$ 20 milhões.
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