
Aos 91 anos, Luiz Carlos Dale Nogari ainda mantém a mesma disposição de quando começou a bater o martelo em leilões. Considerado o leiloeiro mais antigo em atividade no Brasil, ele soma 57 anos de profissão oficialmente registrados na Junta Comercial de Passo Fundo, no norte do RS.
Nas quase seis décadas de atividade, ele soma mais de 8 mil leilões realizados. Natural de Rio Grande, na Zona Sul, Nogari passou também por Porto Alegre e, em 1955, chegou ao norte gaúcho para conhecer a cidade de Marau, que havia sido recém-emancipada.
— Era uma colônia que estava começando. Ali eu comecei a trabalhar com agricultura, pecuária, instalei a criação de suínos de alta raça para melhorar os rebanhos da localidade e implantei silos — lembra.
Cinco anos mais tarde, fez morada em Passo Fundo, onde reside até hoje. Na região, testemunhou a transição da pecuária para a lavoura, a expansão agrícola e o auge das falências industriais nos anos 1960 e 1970.
Mas foi durante a infância em Rio Grande que nasceu a disposição para a carreira:
— O leiloeiro botava uma lança de ferro no paralelepípedo da calçada com uma bandeira. Quem passava já sabia que ali ia haver um leilão. Eu ficava encantado ao ver as pessoas disputarem móveis, louças, peças importadas. Aquilo me marcou pra sempre.
A curiosidade que virou profissão
Já em 1962, começou a liquidar fazendas no Planalto Médio que estavam sendo convertidas de pecuária para agricultura, especialmente para o trigo e, mais tarde, a soja. A partir de então, foi habilitado em 1968 como leiloeiro rural.
— O país não andava bem de finanças, havia muita falência. Em determinado período, cheguei a fazer mais de 60% das falências do Estado. Desenvolvi um sistema de venda que buscava preservar empresas, especialmente frigoríficos, para evitar problemas sociais graves — conta Nogari.
Nos quase 60 anos de profissão, o leiloeiro testemunhou quadros marcantes de colapsos empresariais e viu de perto o impacto emocional das falências.
Quando um proprietário assistia ao leilão do próprio frigorífico, era comum chorar. A gente via um legado inteiro ir ao chão, muitas vezes não por incapacidade administrativa, mas por impostos e políticas equivocadas.
LUIZ CARLOS DALE NOGARI
Leiloeiro mais antigo do Brasil
Nogari também afirma que o papel do leiloeiro vai além de bater o martelo e receber comissão: é entender o lado social e econômico de cada comunidade.
Gerações em atividade
Atualmente, Luiz Carlos Dale Nogari lidera uma empresa com matriz em Passo Fundo e escritórios em Florianópolis (SC), Curitiba (PR) e São Paulo (SP). O filho e o neto seguiram na profissão e também são leiloeiros.
O foco do negócio está, sobretudo, na recuperação de empresas — área que, segundo o leiloeiro, amadureceu nas últimas décadas.
— Antes, quando o juiz decretava uma falência, o maquinário virava sucata. Hoje, busca-se recuperar a empresa. Isso evita problemas sociais e permite que credores recuperem valores. O processo evoluiu e nós evoluímos junto — avalia.
História que virou livro
Autor da biografia Leiloeiro de Sonhos (Méritos, 552 páginas), no livro Nogari resume parte de sua trajetória em busca de instruir jovens para decisões no futuro.
E, mesmo aos 91 anos, ele prepara uma nova obra, com reflexões de quem viu o país, a economia e os mercados mudarem inúmeras vezes diante dos próprios olhos. Enquanto isso, segue firme no que sempre fez:
— A dinâmica faz parte da vida. A gente não pode parar. O corpo desacelera, mas a mente não envelhece.
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