
Seja em meio à lavoura ou em uma roda de conversa, Ellian Bacega, 12 anos, marcou a vida de familiares e amigos. O adolescente morreu após um acidente com um trator na última quarta-feira (26), enquanto trabalhava na propriedade rural da família no interior de Ciríaco.
Ao falar dos momentos vividos ao lado do primo, Erika Bacega tenta unir palavras para descrever o menino que, segundo ela, tinha “energia de sobra e vontade de viver”. Mas é a paixão pelo campo que surge nas primeiras memórias.
— Ele era o nosso coloninho, o nosso orgulho. A felicidade dele era estar na lavoura com a família — conta.
No dia do acidente, Ellian trabalhava na colheita ao lado do pai, do avô e de outros familiares. Erika lembra que o jovem avisou ao pai que desceria do trator para fotografar o pôr do sol — imagem que costumava fotografar e que usava, inclusive, como foto de perfil nas redes sociais. Ao tentar retornar ao veículo, o adolescente caiu sob o trator.
Representante comercial e amigo da vítima, Igor Gava lembra do dia em que conheceu o adolescente:
— Geralmente quando a gente chega em uma propriedade as crianças são mais envergonhadas. Ele, desde o primeiro momento, veio com um sorriso largo, aperto de mão firme e um brilho no olho.
— A certeza que fica é que Deus chamou ele no lugar onde ele mais gostava de estar. Ele se foi com as mãos sujas de terra, trabalhando, cultivando o sonho dele e o da nossa família — conta a prima.

Querido por todos
A vida de Ellian era marcada por paixões como motos, piscina, festas de comunidade, amigos e o chimarrão, sempre presente ao fim da tarde.
— Ele vivia na casa dos colegas, rodeado de gente. Onde ele estava, tinha festa. Ele contava causo (sic), ria, brincava — relembra Erika.
Desde pequeno, Ellian acompanhava os pais, tios e avós no trabalho rural.
— Ninguém da nossa família nunca foi obrigado a estar na lavoura, mas essa era a paixão dele. Ele batia no peito e dizia: “Pode deixar que eu vou. Eu vou ajudar, vou conquistar minhas máquinas, minhas lavouras” — conta a prima.
O grande sonho de Ellian era morar no Mato Grosso e ter uma fazenda. Em janeiro deste ano, conseguiu realizar parte do desejo e conheceu o Estado pela primeira vez.
— A educação e o respeito que ele tinha chamavam atenção. Era como se fosse um guri de alma antiga. Recebia todo mundo bem, sempre com vontade de aprender — disse Igor.
Tradicionalismo
Além da rotina no campo, Ellian alimentava o amor pelas tradições gaúchas. Desde os seis anos, era membro da invernada do Piquete Pai João, onde já havia sido 1º Piazito e 2º Piá Farroupilha, e planejava concorrer novamente no próximo ano. Há cerca de quatro anos, também integrava o Centauros da Tradição — grupo de cavalgadas em que Ellian se associou sozinho.
— Ele arrumava as malinhas e ia sozinho para as cavalgadas. O pessoal sempre acolheu ele muito bem. Era onde ele se encontrava, onde era feliz — diz a prima.
O amigo Igor conta de quando presenteou Ellian com o primeiro lenço:
— Eu disse que ele podia escolher a cor, queria o azul porque era a cor do Grêmio. Mais tarde, ele queria uma pilcha para ingressar na invernada de dança. E conseguiu até fazer a família acompanhar, mesmo sem terem sido tradicionalistas antes.
O adolescente ainda encontrava tempo para a escolinha de futsal e participação ativa no Grêmio Estudantil da Escola Padre Raimundo Damin. A família ainda tenta entender a precoce partida do menino, que parecia viver uma vida maior do que seus 12 anos.
— Ele cumpriu muito a passagem dele. Viveu como alguém de 100 anos. Era proativo, querido, espontâneo, único. Agora a saudade é só o azar de quem teve muita sorte de conviver com ele — conta Erika, emocionada.
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