
Em meio ao vaivém que movimenta as ruas de Carazinho, município de 64 mil habitantes do norte gaúcho, um rito discreto e simbólico chama a atenção de quem passa pelo centro da cidade: são cartazes com notas de falecimento fixados em fachadas de comércios e em postes a cada novo funeral.
A prática, mantida no município há mais de 50 anos, reflete um mecanismo de comunicação comunitária que, em tempos onde os meios digitais ainda não eram comuns, servia como a principal forma de informar sobre as despedidas que aconteciam na cidade.
O costume, tanto por parte das funerárias que colam os cartazes quanto da comunidade que confere o informativo, é tão enraizado no município que muitos moradores acreditam ser algo comum também em outras cidades — o que não acontece. Conforme o Sindicato dos Estabelecimentos Funerários do Rio Grande do Sul (Sesf-RS), não há registros de outros municípios que realizem tal ação.
— Lembro que quando eu era criança andava pelo centro com minha mãe e ela sempre parava para ver as notas de falecimento. Isso sempre foi algo natural e eu acreditava que era algo normal em todo lugar — confirmou uma moradora da cidade.
Tradição de décadas

Mesmo entre os proprietários mais antigos de funerárias de Carazinho, o início da prática é difícil de precisar. De acordo com a Funerária Adam, uma das pioneiras no município, o costume teve início há 55 anos, quando as notas de falecimento ainda eram feitas manualmente em gráficas, uma a uma, e coladas pelas ruas.
A cada novo funeral, agentes funerários imprimem e fixam os comunicados na parte central das Avenidas Flores da Cunha e Pátria. De acordo com a Funerária Nelson Karling, empresa com mais de 30 anos de atuação, as colagens tornaram-se um ritual entre os moradores.
— Há algum tempo tentamos encerrar as notas fixadas nas ruas, mas a comunidade reclamou e então voltamos com as colagens, porém em menor quantidade. Hoje temos somente alguns pontos específicos — disse a proprietária Samira Tissiani, ao informar que a empresa costuma colar em média 20 folhas por funeral.
Com a prática, comerciantes enxergaram uma oportunidade para atrair clientes que, a cada nova parada para ver quem morreu, também aproveitam para olhar as vitrines.
— As notas são coladas sempre nos mesmo lugares. Alguns comércios, inclusive, têm uma plaquinha de mármore feita exclusivamente para a colagem dos cartazes. Nós costumamos colar em média 40 cópias por funeral — disse a proprietária da Funerária Adam, Sabrina Adam.
De acordo com as duas funerárias, a ação é autorizada por boa parte do comércio e é realizada gratuitamente. No entanto, as colagens são feitas sempre mediante autorização da família do falecido.
Hoje, mesmo com os celulares e notificações instantâneas, os cartazes permanecem. E a população que os verifica, também.
— Sempre que passo na rua vejo uma ou outra pessoa para em frente a uma nota de falecimento. Então, sim, ainda tem gente que para pra ler — disse outra moradora.
— Já teve casos de pessoas que descobriram a morte de conhecidos por meio das notas coladas. E a população geralmente pergunta “o que aconteceu? Do que morreu?”. Então as pessoas ainda se interessam e questionam — completou Sabrina.

