
O setor de animais silvestres do Hospital Veterinário da Universidade de Passo Fundo (UPF) registra um aumento na procura por atendimentos durante a primavera. Isso acontece porque, durante a estação, muitas espécies estão em fase reprodutiva e tornam-se mais ativas e visíveis nas áreas urbanas.
Só no último trimestre foram 130 atendimentos, sendo 54 apenas em setembro. Criado em 2014, o setor é mantido pelos alunos do curso de Medicina Veterinária que participam do Grupo de Estudos de Animais Silvestres (Geas), uma atividade de extensão da universidade.
O espaço atende tanto pets exóticos legalizados — coelhos, calopsitas, agapórnis, periquitos e porquinhos-da-índia — quanto animais silvestres de vida livre, resgatados por moradores ou encaminhados por órgãos de fiscalização.
No início do mês, por exemplo, o setor recebeu um quati mantido em cativeiro de forma irregular no bairro Santa Rita, em Passo Fundo. A apreensão foi realizada pelo Batalhão Ambiental da Brigada Militar (BABM).
— O setor funciona de forma semelhante a um Centro de Triagem de Animais Silvestres. Como não há uma unidade desse tipo na região de Passo Fundo, nós acabamos assumindo esse papel — explica o médico veterinário Luiz Pedrotti.
O trabalho do grupo também cumpre um papel de apoio às forças de fiscalização ambiental, já que o Batalhão Ambiental não possui um local próprio para manter os animais.
— Antes, a pessoa era autuada por manter um animal silvestre, mas não tinha para onde levar. Hoje, a UPF consegue oferecer esse acolhimento e tratamento — destaca Pedrotti.
Reabilitação
Atualmente, o setor abriga 25 animais entre aves e mamíferos. As espécies mais atendidas são aves de rapina, psitacídeos e passeriformes, muitas delas vindas de apreensões.
Entre os principais motivos de atendimento estão politraumatismos, causados por atropelamentos ou ataques de cães e gatos, ferimentos por armas de fogo e filhotes órfãos. Quando há condições, os animais passam por soltura imediata, conforme a portaria nº 177/2015, que autoriza a devolução rápida à natureza.
— Avaliamos o comportamento e o estado físico. Se o animal demonstra características de vida selvagem e boa saúde, pode ser solto em áreas seguras como os bosques da UPF ou o Centro de Extensão e Pesquisas Agropecuárias (Cepagro). Caso contrário, ele permanece conosco até a recuperação — explica o veterinário.
Nos casos em que o animal não tem mais condições de viver em liberdade, a equipe solicita à Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) a destinação adequada. Os encaminhamentos são feitos para instituições credenciadas, como o Primaves de Passo Fundo.
Resgate consciente
De acordo com Pedrotti, parte dos atendimentos envolve situações em que os animais não precisariam ter sido recolhidos. Isso ocorre, principalmente, por interpretações equivocadas da população, que associa certos comportamentos naturais a abandono ou risco.
— Nesta época do ano, é comum encontrar filhotes de aves treinando voo ou filhotes de cervo sozinhos. A mãe se afasta para se alimentar e volta depois, isso faz parte da estratégia evolutiva da espécie. O ideal é observar, mas não intervir a menos que o animal esteja ferido — orienta.
Essa percepção equivocada está ligada ao que o veterinário chama de visão antropomórfica, quando o ser humano projeta sentimentos e comportamentos próprios nos animais:
— A pessoa olha um filhote deitado e pensa que está indefeso ou abandonado, quando na verdade ele está se protegendo. Ao recolher sem necessidade, acaba afastando o filhote da mãe e sobrecarregando o atendimento do setor.
O profissional alerta ainda para os riscos à saúde humana e para as implicações legais do manejo inadequado de espécies silvestres.
— Existem zoonoses, doenças que podem ser transmitidas entre animais e pessoas. Além disso, transportar um animal silvestre sem autorização da Sema pode configurar crime ambiental. Inclusive, se a Polícia Rodoviária Federal parar o veículo, a pessoa pode ser autuada — adverte.
Para o transporte legal de qualquer animal silvestre, é necessária uma Guia de Transporte Animal (GTA), emitida pela Sema com o nome do responsável e o veículo autorizado. Pedrotti reforça que o contato com esses animais deve ser sempre cuidadoso e, de preferência, mediado por profissionais.
— Se o animal estiver ferido, aí sim é indicado trazê-lo ao Hospital Veterinário. Mas se ele estiver apenas descansando, treinando voo ou se alimentando, o melhor é deixá-lo no local. A natureza tem o seu tempo.
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