Aos 19 anos, Jonas* cumpre medida socioeducativa na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase) de Passo Fundo há um ano e cinco meses. Em 2026, vai deixar a unidade em dia com a Justiça e trilhar um caminho diferente do que o levou até ali.
— Logo a lili (liberdade) tá cantando. Vou acabar o segundo ano e fazer o terceiro na rua. Aprender é sempre bom, né? Lá fora eu parei de estudar com 15 anos pra trabalhar e na minha cidade não tinha turno de noite. Aqui eu faço um pouco de tudo. Vôlei, xadrez, apresentei o projeto de robótica e agora vou me empenhar no futsal — conta.
Em Passo Fundo, 33 jovens cumprem medida socioeducativa no centro, que tem 37 vagas e é exclusivo para meninos — as internas do sexo feminino vão para uma unidade na Região Metropolitana. A reportagem entrou no espaço, com autorização da Secretaria Estadual de Sistemas Penal e Socioeducativo, em 23 de setembro.
Criada em 2002, à época como Febem, a instituição completou 23 anos em 2025 e está entre as mais bem estruturadas do RS. O local recebe adolescentes menores de 18 anos autores de atos infracionais graves. Os internos podem permanecer na unidade até os 21 anos, quando são liberados compulsoriamente.
Por dentro da Fundação
Independente do ato praticado, os adolescentes recebem o mesmo tratamento: dormitórios individuais, aulas nas manhãs e tardes, acompanhamento psicológico, práticas esportivas, artísticas e de cuidados com animais. Muitos chegam com problemas de vício e requerem atenção integrada à saúde.
Por essa razão, a instituição tem uma política de tolerância zero à entrada de álcool, cigarro e drogas na unidade. Em contrapartida, o centro se destaca por ser o único do Estado com sala de visita íntima.
A diretora da unidade, Katiane Bier, atua no local desde 2023. Segundo ela, no um ano e meio em que esteve à frente da fundação, não registrou situações de risco ou brigas — contexto que classifica como "constante positiva":

— O tratamento dos internos é sempre igual. Para nós, não importa qual ato eles cometeram, as internações são tratadas sem preconceito. O nosso trabalho é recuperar esse adolescente e devolver ele para a sociedade, para a família, melhor do que entrou — diz a diretora da unidade, Katiane Bier.
Os internos da Fase são também estudantes. A Escola de Ensino Médio Paulo Freire fica dentro da unidade e os alunos acumulam conquistas. Em setembro, a turma de robótica alcançou a segunda posição na Mostra Científica regional das escolas e agora vai disputar a etapa estadual. Duas semanas antes, ergueram o troféu de primeiro lugar no torneio de vôlei.
— Eles são obrigados a frequentar as aulas, não é opcional. Conforme o ano que chegam aqui, são matriculados na escola e têm uma rotina a seguir — ressalta a diretora.

O depois
Quando deixam o centro, a maioria dos jovens retorna para a convivência em sociedade com a mesma identidade, a não ser nos casos em que são incluídos em programas de proteção. Seja como for, todos os jovens deixam a Fase sem antecedentes.
Alcançar a liberdade é o principal objetivo de Jonas no momento. Enquanto não chega lá, se dedica ao desenho, talento que fez com que se tornasse o vencedor do primeiro lugar no 8° Concurso Literário realizado entre as Fases de todo o Estado. Agora, ele traça planos para o futuro.
— Eu tento me empenhar bastante no desenho, treinar sombreado, porque mais pra frente eu quero ser tatuador profissional — diz, esperançoso.
*A reportagem utilizou nome fictício para o socioeducando para preservar sua identidade, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

