
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) ingressou na Justiça com uma Ação Civil Pública contra a empresa Razor Computadores, de Passo Fundo, no norte do Estado. O motivo é a não entrega de produtos a centenas de clientes, a não devolução de valores e a dificuldade em conseguir um acordo para resolução dos conflitos.
A reportagem de GZH Passo Fundo e RBS TV teve acesso ao inquérito que traz casos dos últimos anos relatando atrasos e não recebimento, além da dificuldade em obter estorno do valor das compras.
Uma das reclamações mais antigas é de 2021. Em outubro daquele ano, um cliente da Região Metropolitana comprou um computador de R$ 9,8 mil e só recebeu o equipamento quase dois anos depois, após processo judicial.
Como essa, outras reclamações foram anexadas ao inquérito, relacionadas aos computadores de alto desempenho. As chamadas workstations partem de pouco mais de R$ 8 mil até valores que superam os R$ 40 mil, e são normalmente utilizadas por quem realiza trabalhos especializados ou pesquisas científicas.
Especializada na fabricação de computadores de alta performance, a startup Razor Computadores ficou conhecida por arrecadar R$ 1,7 milhão em sete dias através de equity crowdfunding, mecanismo que oferece oportunidades de investimento online. Em 2023, um dos seus fundadores integrou lista da Forbes dos principais nomes do país com menos de 30 anos.
Clientes lesados em todo o país
Um profissional do ramo da arquitetura que pediu para não ser identificado relatou à reportagem que investiu R$ 20 mil em uma workstation ainda em 2024. O objetivo era alavancar a carreira com projetos maiores, que exigiam uso de softwares pesados.
De lá para cá, ficou sem o computador, sem o emprego em uma grande companhia e ainda não recebeu o dinheiro de volta:
— É uma empresa conhecida no mercado, a gente nunca espera que não vão te entregar o produto. Acabei perdendo o cargo porque eu não tinha especificações técnicas de máquina para a execução das tarefas do dia a dia.
Em Santa Maria, na Região Central, uma cliente precisava de uma máquina com configuração específica. Durante uma pesquisa na internet, ela encontrou na Razor bons indicadores para fechar negócio em junho de 2024.
— Parecia, à primeira vista, confiável. Eles se vendem dessa forma, com o diferencial de que teria assistência técnica no local e a possibilidade de configuração da máquina, que era uma coisa que para mim era atrativa — relembra a santa-mariense.
Após a compra, ela aguardou o prazo de envio da máquina. Perto da data limite, foi informada via e-mail que o produto não seria entregue: a empresa precisava alongar o prazo, mas ainda assim disse que entregaria a ferramenta de trabalho.
Quando chegou a nova data, eles prorrogaram mais uma vez, alegando o mesmo problema. Acabou que nunca entregaram, então tive que acionar o Procon. Entrei com ação judicial e, até hoje, nunca recebi nem o dinheiro, nem o computador.
CLIENTE DA EMPRESA
pediu para não ser identificada
A Razor alega que o motivo da não entrega dos produtos ainda é reflexo da covid-19: durante a pandemia, o mundo da tecnologia viveu uma crise de semicondutores, que se estendeu durante os anos seguintes. Mas quase seis anos após a escassez na distribuição, a justificativa segue sendo apresentada aos clientes.
O pesquisador de oceanografia da Universidade de São Paulo (USP), Luis Americo Conti, recebeu em 2023 uma verba do governo para investir em uma máquina voltada ao trabalho. Ele gastou os R$ 30 mil em uma workstation da Razor e nunca recebeu o equipamento:
— É algo bastante estranho, porque, ao mesmo tempo, outros pesquisadores do meu laboratório compraram equipamentos com outras empresas e foram entregues normalmente — questiona Conti.
Além da pesquisa, que já está com o avanço prejudicado pela falta de equipamento adequado, o pesquisador também se preocupa com a prestação de contas que precisará fazer:
— Vou ter que prestar contas pessoalmente desse prejuízo, ou seja, eu vou ter que ressarcir os cofres públicos se esse equipamento não for entregue até o final do projeto.
Sem receber o computador, Conti foi atrás de mais informações da empresa e conheceu outros clientes que também passaram pela mesma situação. Um deles é o empresário carioca Márcio Berguito, que administra um grupo de WhatsApp composto por dezenas de outras pessoas que investiram milhares de reais em máquinas da Razor, que nunca foram entregues.
Tem gente de Belém do Pará, de Curitiba, do Rio, de São Paulo... É bem impressionante a capilaridade que eles conseguem alcançar. É computador de R$ 3 mil a R$ 40 mil, R$ 60 mil
MÁRCIO BERGUITO
Empresário do Rio de Janeiro
Quase 90 processos em seis meses

A não entrega das máquinas causada pela crise dos componentes semicondutores, com a continuidade da oferta de produtos na internet, somados ao volume de cancelamento de pedidos, gerou um efeito bola de neve.
A empresa alegou ao Ministério Público que, à medida que os clientes cansavam de esperar a entrega das workstations, solicitavam o valor de volta. Sem caixa, a Razor, que segue anunciando e vendendo, usava o dinheiro de novos negócios para ressarcir a primeira leva de clientes, deixando os novos compradores sem o produto.
Em uma audiência realizada em março deste ano, a Razor informou que tinha 330 pedidos para serem entregues, cada um com valor médio de R$ 20 mil. Ou seja, mais de R$ 6 milhões em passivos. A falta de soluções levou a empresa ao banco dos réus: de junho de 2024 a janeiro deste ano foram 88 novos processos abertos na Justiça.
A eles se soma a Ação Civil Pública movida pelo MPRS em junho deste ano. De acordo com o promotor Cristiano Ledur, o caso chegou à Justiça após o esgotamento das alternativas.
— Propusemos um prazo para que fosse entregue, em até 60 dias, todos aqueles equipamentos que estavam com entrega atrasada há 60 dias, o que daria 120 dias. Ou seja, já estavam 60 dias atrasados, mais 60 para que fosse feita a entrega. A empresa entendeu que não tinha como cumprir. No momento em que a gente esgota as tratativas no âmbito do extrajudicial, acabamos recorrendo então ao Poder Judiciário — explicou o promotor.
O que diz a empresa
Procurada pela reportagem, a Razor Computadores informou que está ciente dos fatos relatados e lamenta os impactos causados aos clientes. Conforme a empresa, foi instituída uma força-tarefa interna para apurar todos os casos de não-entrega de produtos.
Leia a nota na íntegra:
"POSICIONAMENTO INSTITUCIONAL RAZOR DO BRASIL
A Razor do Brasil, fabricante brasileira de computadores de alta performance com atuação nacional e internacional, vem por meio deste posicionamento institucional esclarecer os questionamentos apresentados pela equipe de reportagem da RBS TV no dia 22 de agosto de 2025. Em relação à reportagem sobre reclamações de atrasos e não entrega de computadores, a Razor do Brasil afirma, de forma transparente, estar ciente dos fatos relatados e lamenta os impactos causados a seus clientes.
A empresa destaca que já está adotando medidas concretas para solucionar integralmente a questão, que corresponde a cerca de 10% do total de demandas atendidas. Entre 2021 e 2022, a crise global de semicondutores afetou diretamente a capacidade de produção e entrega de computadores da Razor, situação que impactou no fluxo de logística da empresa e contribuiu para o contexto atual.
A Razor do Brasil comunica que instituiu uma força-tarefa interna para apurar todos os casos de atrasos e não-entrega de serviços, além de disponibilizar um canal específico de ouvidoria para prestar atendimento ágil a todos os clientes que necessitam de informações, pelo contato ouvidoria@razor.com.br.
A Direção da empresa destaca, ainda, que segue trabalhando para restituir integralmente os impactos causados e recuperar a confiança de cada cliente, além de retomar o crescimento sustentável da empresa o mais breve possível.
A Razor do Brasil reitera que esse contexto não reflete a essência de empreendedorismo, inovação e tecnologia da empresa, que mobiliza toda sua equipe para o bom relacionamento com seus clientes e a credibilidade da marca com o mercado".


![Divulgação / Divulgação Direita] Ícaro Silva da Rosa Linck Fróes, de Canoas (RS) e [esquerda] Gonçalo Franke Franco, de Porto Alegre (RS), Olimpíada Internacional de Inteligência Artificial (IOAI). A 3ª edição da disputa ocorreu de 2 de agosto até este sábado (8), em Astana, capital do Cazaquistão.<!-- NICAID(16343006) -->](https://www.rbsdirect.com.br/filestore/3/7/9/9/6/1/6_38b88ff67826e8b/6169973_2b4b9a9c80b08d3.jpg?format=webp&h=270&w=406)