
No esporte, algumas vitórias acontecem antes mesmo da entrada em quadra. A de Aurio Fortunato começou há 18 anos, quando precisou reconstruir a própria vida após perder a perna esquerda em um acidente de motocicleta.
Hoje, o morador do norte do Estado coleciona outra marca: está entre os três melhores tenistas para-standing do planeta, esporte voltado para atletas com deficiência física que competem sem o uso de cadeira de rodas.
Natural de Vila Lângaro, município com pouco mais de 2 mil habitantes, Aurio, 38 anos, vive o principal momento da carreira.
O gaúcho fechou junho como vice-campeão do campeonato mundial de 2026, disputado em Turim, na Itália, resultado que o colocou na terceira colocação do ranking mundial da categoria PST 2.
O desempenho internacional representou mais um capítulo de uma trajetória construída longe dos grandes centros esportivos e marcada pela persistência.
Durante a campanha na Itália, Aurio superou adversários de diferentes países. Pelo caminho, venceu o brasileiro Franklin Maciel Torres Júnior e o australiano Adam Hills, atual número dois do mundo. Depois, passou pelo italiano Damiano Dessolis e pelo francês Julien Couchet.
Na semifinal, derrotou o sueco Elf Zetterberg por dois sets a zero. A sequência terminou apenas na decisão, diante do britânico Matthew Grover, líder do ranking mundial.

— Para mim foi uma surpresa chegar à final. Estou voltando de uma lesão no ombro e também disputei a competição de duplas. Na reta final o desgaste pesou bastante, mas enfrentei um adversário de alto nível — relata.
Destino inesperado
O resultado ganha ainda mais peso quando se observa o caminho percorrido até chegar ao cenário internacional.
Antes do tênis, a paixão de Aurio era o futebol. Em 2008, porém, um acidente de motocicleta em Vila Lângaro mudou os rumos da sua vida. O período seguinte foi dedicado aos estudos e ao trabalho.
O retorno ao esporte aconteceu cerca de dez anos depois.
— Sempre gostei muito de praticar esporte. Depois do acidente me afastei um pouco. Mais tarde recebi um convite de amigos para jogar tênis. Nunca tinha entrado em uma quadra. Comecei por curiosidade e não parei mais — relembrou a retomada da prática.
A modalidade para-standing entrou em sua vida há aproximadamente três anos. Desde então, passou a disputar competições nacionais e internacionais com apoio técnico do treinador Gustavo Barretieri.
Os resultados vieram rapidamente. Em 2025, conquistou o título brasileiro da categoria. Poucos meses depois, alcançou um dos maiores resultados da história recente do esporte adaptado gaúcho.
Mesmo ocupando posição de destaque no ranking, Aurio reconhece que competir com atletas europeus exige esforço adicional.
A maioria dos torneios da modalidade ocorre no continente europeu, o que aumenta os custos e oferece mais oportunidades de pontuação aos adversários.
— Eles têm uma condição mais favorável. Disputam mais competições e contam com incentivo financeiro maior. Aqui na América do Sul o circuito ainda está em crescimento, mas seguimos buscando espaço — comparou.
Para Aurio, porém, os resultados representam apenas parte da importância do esporte.
O tenista acredita que o Para-Standing cumpre um papel de inclusão e pode abrir portas para novos praticantes.
— O mais importante é mostrar que existem possibilidades. Se a minha história servir para incentivar outras pessoas a praticar esporte e acreditar nelas mesmas, já fico feliz. É possível ser inspiração — comentou.
Próximo desafio
O próximo compromisso está previsto para setembro, quando disputará o South American Para Standing Tennis Championships, em Brasília.
Apesar da posição entre os melhores do mundo, Aurio não vive exclusivamente do esporte. Formado em Administração pela Anhanguera, em Passo Fundo, mora há cerca de oito anos em Tapejara, onde atua no setor de eventos.
Entre viagens, trabalho e competições, encontra no tênis algo que vai além dos resultados.
— Quando entro em quadra, consigo esquecer os problemas. É um momento em que a mente fica voltada apenas para o jogo — finalizou.
*Sob orientação e supervisão do jornalista Vitor Zuccolo.




