
No Dia Internacional das Mulheres, GZH Passo Fundo relembra um capítulo significativo da história esportiva do Rio Grande do Sul: a trajetória de As Legionárias, a primeira torcida organizada composta exclusivamente por mulheres no estado e, segundo os registros disponíveis, possivelmente a primeira do Brasil.
Embora não exista pesquisa definitiva, não há qualquer registro histórico de outra torcida exclusivamente feminina formada antes de 1924. Além de pioneiras nas arquibancadas, essas mulheres participaram diretamente da criação e sustentação do Ypiranga, de Erechim, em seus primeiros passos.
Pioneirismo
Nos anos 1920, quando As Legionárias surgiram, a presença feminina nos estádios não era proibida, mas estava longe de ser bem-vinda. O futebol era considerado um ambiente masculino, e a participação das mulheres era vista com estranhamento e até hostilidade. Muitas enfrentavam comentários depreciativos, vigilância moral e a expectativa social de que “futebol não era lugar de mulher”.
A repressão aumentou a partir da década de 1940, quando o governo Vargas proibiu a prática de modalidades esportivas consideradas “incompatíveis com a natureza feminina”. Embora a lei não impedisse que mulheres assistissem aos jogos, o clima cultural reforçou o preconceito e, ainda assim, elas resistiram.
A história prova que, apesar das barreiras, as mulheres nunca deixaram de ocupar arquibancadas, campos de várzea, pátios esportivos e espaços de decisão. E em Erechim, elas estavam lá antes mesmo da primeira partida oficial do clube.
A única mulher na fundação do Ypiranga e a origem da torcida

Nesse cenário, a figura de Ercília Mônica Di Francesco Amorim torna-se ainda mais emblemática. Ela foi a única mulher presente na assembleia de fundação do Ypiranga, realizada em 18 de agosto de 1924, e assumiu desde o início um papel ativo na consolidação da nova equipe.
Percebendo que o recém-criado time precisava de recursos, Ercília tomou a iniciativa de vender botões de rosa para arrecadar fundos destinados ao pagamento dos jogadores. Esse gesto simples se transformou em símbolo e, rapidamente, outras mulheres se reuniram em torno dela para apoiar o clube.
Assim nasciam As Legionárias, uma torcida organizada formada exclusivamente por mulheres, talvez a primeira do Brasil, que vendia rosas nos jogos, acompanhava o time em cortejos e ajudava a construir sua identidade.
As Legendárias: organização, presença e identidade
As Legionárias se reuniam antes dos jogos do Ypiranga, muitas vezes em frente às casas das próprias torcedoras, e seguiam juntas até o Estádio da Montanha, antigo campo do time de Erechim. Vestidas com roupas claras, chapéus e sombrinhas, elas carregavam bandeiras, conduziam cantos e mobilizavam a comunidade para apoiar o time.
A torcida:
- financiava salários e despesas da equipe com a venda de flores;
- participava de eventos sociais do clube;
- influenciava a visibilidade e o prestígio do time na cidade;
- consolidou a ideia de pertencimento feminino ao futebol.
A presença delas foi tão marcante que acabou mencionada no hino do clube, evidenciando o impacto cultural que tiveram na formação da agremiação.
A TUSP e o marco das torcidas organizadas no Brasil
Para contextualizar o pioneirismo das Legionárias, é importante lembrar que a primeira torcida organizada/uniformizada reconhecida do país surgiu somente 15 anos depois, em 1939: a Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP).
Criada por Manoel Raymundo Paes de Almeida, inicialmente com o nome de Grêmio São-Paulino, a TUSP foi a primeira torcida a uniformizar seus membros e a usar, de forma sistemática, bandeiras, faixas e instrumentos musicais nos estádios. Ela se destacou especialmente na inauguração do Estádio do Pacaembu, em 1940, quando suas coreografias e símbolos chamaram a atenção da imprensa esportiva.
Ao longo dos anos, divergências internas levaram parte dos seus integrantes a fundar a Torcida Independente em 1972. A TUSP continuou existindo até ser definitivamente extinta em 1995.
A comparação histórica reforça ainda mais o pioneirismo das Legendárias: uma torcida exclusivamente feminina existia no interior do RS mais de uma década antes da primeira torcida organizada brasileira ganhar forma em São Paulo.



