
Quatro décadas se passaram desde que uma conversa informal mudou o rumo do futebol passo-fundense. Em meados dos anos 80, a cidade vivia uma crise: Gaúcho e 14 de Julho, tradicionais clubes locais, enfrentavam dificuldades financeiras. Em um domingo, após uma rodada dupla no estádio Wolmar Salton, dirigentes se reuniram em uma churrascaria e lançaram a proposta: unir forças para manter o futebol vivo na cidade.
A ideia ganhou corpo e, em 10 de janeiro de 1986, foi oficializada a criação do Esporte Clube Passo Fundo, com sede no bairro São Cristóvão. O objetivo era claro: formar uma equipe forte, capaz de atrair público e patrocinadores.
O então prefeito Fernando Machado Carrion incentivou a fusão, que inicialmente envolveu apenas o departamento de futebol. Pouco tempo depois, o Gaúcho se desligou do projeto, mas o 14 de Julho transferiu seus bens ao novo clube, garantindo a consolidação do Passo Fundo que, neste sábado (10), completa 40 anos de fundação.
Ídolos que marcaram época
Cláudio Freitas: o pioneiro
Cláudio Freitas é um dos maiores nomes da história do Passo Fundo. Ele fez o caminho inverso do que muitos jogadores fariam hoje: trocou o Intern pelo Passo Fundo. Começou nas categorias de base coloradas e, no ano seguinte, foi emprestado ao tricolor, onde conquistou o título da Segunda Divisão em 1986. Voltou ao Inter, mas o clube perdeu o prazo para manifestar interesse no jogador, e Freitas retornou ao Passo Fundo, sendo depois repassado ao Grêmio.
Foram 222 jogos com a camisa tricolor e 91 gols, números que o colocam entre os maiores ídolos do clube.
Felipe Silva: do interior ao topo da artilharia
Felipe começou sua trajetória longe dos holofotes. Natural de Ernestina, jogava campeonatos amadores quando amigos insistiram para que tentasse um teste no Passo Fundo. Em 1997, chegou ao clube para atuar nas categorias de base.
No ano seguinte, subiu para o profissional e viveu um momento inesquecível: o segundo acesso do clube à Série A do Gauchão, conquistado em 1998 contra o São José de Cachoeira do Sul.
Os dois clubes terminaram empatados nos critérios da fase final, e a FGF marcou um jogo extra na casa do adversário. No tempo normal, empate por 1 a 1. Na prorrogação, novo empate, desta vez sem gols. Nos pênaltis, o Passo Fundo venceu e garantiu o acesso.
— Foi marcante: primeira vez no profissional e ainda bati o primeiro pênalti das cobranças que valiam vaga na elite. Não imaginava que um dia seria ídolo do clube — relembrou Felipe.
A partir daí, construiu uma carreira sólida no Vermelhão da Serra. Em 2000, fez história ao se tornar artilheiro do Campeonato Gaúcho, superando nomes como Ronaldinho, que defendia o Grêmio.
— Ser artilheiro num campeonato tão difícil, jogando pelo interior, foi especial. Lembro do gol contra o Guarani de Venâncio Aires, de cabeça, no finalzinho, que nos classificou entre os oito. O estádio estava lotado, mais de 10 mil pessoas. Esse jogo ficou marcado para sempre — contou.
Felipe repetiu o feito em 2005 e encerrou a carreira em 2014, após três passagens pelo clube e 112 gols marcados, consolidando-se como o maior artilheiro da história do Passo Fundo.
Mário Larramendi: o estrangeiro que virou ídolo
Em 2011, o Passo Fundo abriu as portas para um uruguaio que conquistaria o coração da torcida: Mário Larramendi. Entre 2011 e 2013, ele foi peça-chave na campanha do último acesso à elite do futebol gaúcho, em 2012. Voltou em 2019 para se despedir dos gramados vestindo a camisa tricolor.
— O Passo Fundo me fez sentir em casa. O acesso de 2012 foi inesquecível. Voltar para me aposentar aqui foi uma forma de agradecer — destacou Mário.
Além do protagonismo dentro de campo, Larramendi se tornou referência pela liderança no vestiário e pela identificação com a cidade. Era comum vê-lo participando de ações sociais e interagindo com torcedores, reforçando o vínculo entre clube e comunidade. Sua entrega e carisma fizeram dele um dos estrangeiros mais marcantes da história do futebol local.
— Depois do acesso, os torcedores me convidaram para um churrasco. Cheguei lá e eles disseram: "Agora é você quem paga" E eu paguei com alegria, porque era a minha maneira de agradecer por todo apoio que recebi — relembrou.
Outros craques
O Passo Fundo também se firmou como a casa de craques. Saíram das suas bases talentos como o meia Marquinhos Gabriel, que fez sua formação no clube e segue em atividade, com uma transferência que rendeu uma quantia significativa aos cofres tricolores. Outro exemplo é Marcos Dall’Oglio, o ex-volante conhecido como “Marquinhos”, que optou por trocar os gramados pela medicina e formou-se em 1993 após jogar no Inter e no Tricolor.
Já na campanha da Série C de 2001, o Passo Fundo contou com a presença de Rodrigo Caetano, hoje gerente executivo da Seleção Brasileira. Além disso, o clube recebeu grandes jogadores com vivência internacional, como China, que atuou pelo Tricolor em 1994 e integrou a seleção na Copa América de 1983, Ediglê, campeão mundial de clubes pelo Inter, que vestiu o manto tricolor em 2014, e Souza, vencedor da Libertadores, Copa do Mundo de Clubes e Brasileiro pelo São Paulo, que se apresentou em 2015.
Ainda brilharam no Vermelhão nomes como Leocir Dalastra, Luiz Freire, Cabrinha, Ferreira, e mais recentemente Sandro Sotilli, artilheiro do último acesso e dono da artilharia do Gauchão.
A aventura na Série C do Brasileirão
Em 2001, o Passo Fundo viveu um capítulo único na sua história: a participação na Série C do Campeonato Brasileiro. Depois de uma campanha regular no Gauchão, terminando em 11º lugar entre 17 equipes, o clube apostou na base e montou um elenco jovem, com nomes como Mainardi, Ezequiel, Roberto, Emanuel, Beto e Vinícius.
A competição nacional começou em setembro e reuniu 65 clubes divididos em 10 grupos. O Passo Fundo caiu em uma chave regionalizada, ao lado de Marcílio Dias, Iraty, Brasil de Pelotas, São José, Pelotas e Tubarão. A campanha foi difícil: o Tricolor somou apenas duas vitórias, quatro empates e sete derrotas, terminando em 51º lugar geral, sendo eliminado ainda na primeira fase.
Apesar da eliminação precoce, a Série C de 2001 marcou a única experiência do Passo Fundo em uma competição nacional, reforçando o sonho de um dia voltar a disputar o cenário brasileiro.
Presente e futuro: reorganização e esperança
O Passo Fundo não disputa a elite do futebol gaúcho desde 2017, quando foi rebaixado para a Divisão de Acesso. Este é o maior período fora da Série A desde a fundação do clube, há 40 anos.
Para mudar esse cenário, a diretoria traçou dois objetivos para 2026: disputar a Copa FGF, que começa em maio e garante vaga na Série D do Campeonato Brasileiro, e buscar o retorno à elite estadual na Divisão de Acesso, que inicia em agosto.
— O objetivo para este ano comemorativo é claro: voltar à Série A do Campeonato Gaúcho. Trabalhamos com planejamento e organização para alcançar o acesso. O apoio da torcida, dos patrocinadores e da comunidade é fundamental — destacou o presidente Ferrão.




