
A inteligência artificial está transformando a forma como pessoas estudam, trabalham e produzem conhecimento. Mas, para o biólogo, pesquisador e divulgador científico Átila Iamarino, as universidades precisam assumir um papel de contraponto nesse cenário. A avaliação foi feita durante participação na abertura da XIII Semana do Conhecimento da Universidade de Passo Fundo (UPF), realizada na noite de segunda-feira (31).
Convidado para abrir o evento, que tem como tema "IA na Ciência", Átila participou da programação realizada no Centro de Eventos da instituição. Esta é a segunda participação dele na Semana do Conhecimento, que neste ano registra números recordes, com mais de 900 trabalhos inscritos, 97 sessões de apresentação e mais de 1,2 mil ouvintes inscritos.
O pesquisador ressaltou que a inteligência artificial não cria apenas oportunidades. Segundo ele, as ferramentas também ampliam problemas que já existem na sociedade.
— Eu acredito que ela está potencializando muitas coisas. Potencializando a análise de dados, aumentando uma interação mais intuitiva com máquinas, mas também potencializando vieses, potencializando racismo e potencializando sexismo — afirma.
O papel das universidades
Questionado sobre como as instituições de ensino superior devem lidar com a popularização da inteligência artificial, especialmente entre estudantes, Átila foi direto ao defender uma postura crítica.
Segundo ele, a missão da universidade não é apenas ensinar a utilizar ferramentas tecnológicas, mas desenvolver capacidades que permitam avaliar, questionar e validar informações produzidas por esses sistemas. O pesquisador alertou que o uso excessivo da IA pode comprometer habilidades essenciais ao processo de formação acadêmica.
— No caso da competência científica, que é parte do que a universidade se propõe a fomentar, existe também o potencial de não dar oportunidade de desenvolver essas habilidades quando se usa IA desde muito cedo, no caso dos estudantes, ou de perda de habilidades para quem passa a depender demais dela depois de já ter desenvolvido essas competências — explica.
IA também amplia preconceitos
Durante a conversa, o divulgador científico chamou atenção para outro aspecto frequentemente debatido na comunidade acadêmica: os vieses reproduzidos pelos sistemas de inteligência artificial. Segundo ele, como os modelos são treinados a partir de grandes volumes de informações disponíveis na sociedade, acabam repetindo distorções históricas presentes nesses dados.
— Quando você pede para uma IA gerar uma bibliografia científica ou escrever uma análise, ela pode repetir os vieses dos dados que recebeu durante o treinamento. Isso inclui, por vezes, excluir mulheres ou reforçar desigualdades já existentes — afirma.
Mudanças climáticas

Além dos impactos educacionais e sociais, Átila também abordou uma preocupação crescente na comunidade científica: o custo ambiental da expansão da inteligência artificial. Para ele, a corrida tecnológica entre Estados Unidos e China tem provocado um aumento acelerado da demanda por energia e infraestrutura.
— Hoje, nesse instante do tempo em que a gente está, a inteligência artificial está potencializando as mudanças climáticas — conclui.
O evento segue até quinta-feira (3) e reúne pesquisadores, professores, estudantes e profissionais de diferentes áreas para discutir os impactos da inteligência artificial na produção científica.
Graduado em Biologia e doutor em Microbiologia, Átila é fundador do ScienceBlogs Brasil, foi apresentador do canal Nerdologia e atualmente produz conteúdo científico para mais de 1,5 milhão de inscritos em suas plataformas digitais.
*Colaborou Guilherme Höhn


