Retomar os estudos é uma jornada em andamento para 593 alunos matriculados na Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Passo Fundo. No município, três instituições estaduais ofertam a modalidade, entre elas a Escola de Ensino Fundamental Anna Willig, localizada no bairro Boqueirão.
— Aqui no EJA temos alunos dos 15 aos 67 anos matriculados, mas já tivemos alunos de 70 anos e até de 82. Eles chegam aqui por não terem conseguido dar continuidade à educação no passado ou por não se adequarem ao ensino regular — explica a diretora da escola, Ana Maria da Rosa Prates.
Os componentes curriculares são os mesmos do ensino comum, a diferença é o foco na profissionalização. Assim como no ensino básico, a instituição também realiza busca ativa para evitar a desistência:
— O aluno que tem, por exemplo, quatro ou cinco faltas consecutivas, nós ligamos para a pessoa ou para a família para perguntar o que está acontecendo, se precisam de ajuda para voltar a estudar — explica a diretora.
Conciliar trabalho e educação

Atualmente, 77 alunos estão matriculados no período da noite na escola, turno reservado ao EJA. Os estudantes vêm de diversos bairros da cidade, como Integração, Petrópolis, Vila Independente e Vila Luiza. Entre eles está Paulo Nascimento, 57 anos, que abandonou os estudos aos 13 para poder trabalhar.
— Minha esposa sempre me incentivou a voltar a estudar, mas a rotina de trabalho é puxada. Depois de 43 anos voltei com os estudos. Quero agregar conhecimento e depois, futuramente, vou pensar em fazer uma faculdade, trabalhar em outra área — conta.
Órfão de pai ainda na adolescência, Paulo ficou responsável por sustentar a família. Hoje, o aluno trabalha como zelador durante o dia e estuda à noite. Para ele, a rotina é difícil, mas o esforço compensa:
— Eu sempre cobrei dos meus filhos, falando que "o ensino ninguém te tira". Agora eu voltei para acabar o ensino fundamental, e a experiência é muito boa. Sou o mais velho da turma, e o primeiro da família a voltar a estudar.
Mudança de realidade

O EJA busca evitar a repetição do ciclo de abandono dos estudos em detrimento do trabalho. É o caso da adolescente Bianca Caroline Almeida, 15 anos, que busca emprego durante o dia e à noite frequenta a instituição.
— Meu objetivo agora é conciliar o trabalho com os estudos, no futuro quero fazer uma faculdade. Eu puxo a minha irmã para fazer o mesmo, ela parou de estudar e falo para ela tentar de novo — afirma.
Para a diretora da escola, fazer parte da trajetória dos alunos é gratificante e prova que a educação é capaz de transformar realidades. Moradora do bairro, ela quer passar adiante o conhecimento que adquiriu:
— Eu sempre falo para eles (os alunos) que eu moro nesse bairro desde sempre. Estudei e consegui meu doutorado enquanto trabalhava, então é possível a gente mudar a nossa realidade através do estudo. Eu sou a primeira doutora em Educação daqui do nosso bairro, acho que meu exemplo os incentiva a não parar de estudar.




