
O agronegócio brasileiro vive uma acelerada transformação digital, impulsionada pela movimentação de grandes players, pelo avanço das startups especializadas no setor — as agtechs — e pela adoção crescente de tecnologias como análise de dados, automação e inteligência artificial no campo. De acordo com o Radar Agtech Brasil, o número de startups voltadas à área cresceu mais de 75% desde 2019, refletindo um ecossistema cada vez mais dinâmico e conectado à inovação.
No entanto, persiste o desafio de trazer para o campo tecnologias que geram resultados práticos para as propriedades rurais. Como é o caso da John Deere, que construiu o primeiro Centro de Pesquisa em Agricultura Tropical com o objetivo de atender demandas específicas do mercado brasileiro, reduzindo o tempo de desenvolvimento de soluções.
Nesse contexto, iniciativas voltadas para a formação de profissionais no setor ganham protagonismo. Em entrevista, o diretor da Escola do Agronegócio da Atitus, Deniz Anziliero, explica como a integração entre ensino, empresas e tecnologia pode reduzir esse gargalo, preparar talentos e impulsionar a competitividade do campo.
- Acesse a página da Escola do Agronegócio e conheça iniciativas que conectam formação e mercado no agronegócio
O que motivou a criação do Laboratório de Tecnologias Agrodigitais e de que forma esse ambiente diferencia o modelo pedagógico da Atitus?
Quando a tecnologia chegou ao dia a dia urbano, muitas pessoas levaram tempo para aprender a utilizar todo seu potencial. Com os smartphones, por exemplo, ainda aproveitamos apenas uma parte das funcionalidades disponíveis. No agro, a lógica é semelhante: a tecnologia evolui rápido, mas ainda há dificuldades de uso no campo. A taxa de aplicação é baixa, principalmente por falta de mão de obra qualificada e capacitação técnica.
Foi a partir desse cenário que surgiu o Laboratório de Tecnologias Agrodigitais, com a proposta de transformar o agro digital em algo concreto — um ambiente em que o estudante consegue ver, testar e aplicar na prática.
O diferencial está no conceito phygital (combinação de digital e físico em inglês), que integra empresas e formação em um mesmo espaço, conectando o aprendizado com desafios reais do setor. Assim, a Atitus busca preparar melhor tanto quem está se formando quanto profissionais que já atuam no mercado, reduzindo o gap entre a tecnologia disponível e seu uso efetivo no campo.

Como o laboratório aproxima os estudantes de desafios reais do agronegócio e o que isso muda na formação desses profissionais?
O contato com experiências digitais e desafios reais é uma prática comum em disciplinas dos cursos voltados ao agronegócio, mas não queríamos que fosse algo pontual. Na prática, os alunos trabalham com tecnologias e situações trazidas pelas próprias empresas, que participam ativamente do processo com demandas reais do setor. Com isso, o estudante deixa de apenas aprender sobre tecnologia e passa a saber utilizá-la, aplicá-la e gerar resultados concretos.
O laboratório se consolida como um espaço estratégico não só para a Atitus, mas para todas as empresas que, diante da transformação digital, necessitam de profissionais mais preparados — especialmente nas áreas de agricultura e pecuária de precisão, com novas habilidades e competências.
Por que a aproximação entre formação e mercado se tornou estratégica no agronegócio?
Essa foi uma das nossas preocupações em 2019, quando começamos a estruturar a Escola do Agronegócio. Ouvimos as empresas, e um dos principais pontos levantados foi um desalinhamento entre o perfil dos profissionais formados e as demandas do setor.
Com o agronegócio evoluindo em ritmo acelerado, muitos profissionais acabam se adaptando apenas depois de ingressar no mercado de trabalho. Ao aproximar empresas da jornada de formação, esse processo acontece antes, ainda durante o período de estudo, e beneficia ambos os lados: forma profissionais mais preparados e permite que as empresas identifiquem e desenvolvam talentos antes mesmo da contratação, reduzindo um dos principais desafios do setor hoje, que é a escassez de mão de obra qualificada.

E, na prática, como ocorre essa aproximação com os parceiros?
Em 2023 criamos um programa de parcerias, o Agribusiness Partner Program, alinhado à estratégia de atender às quatro verticais da Escola: Grãos; Máquinas e Implementos Agrícolas; Proteína Animal e Gestão e Liderança. Desde o início, buscamos empresas que convergem com nossos propósitos, que compartilhem a visão de que as pessoas podem transformar os setores e que contribuam efetivamente para a formação dos estudantes.
Nos últimos três anos, procuramos entender quem são os players do mercado e, ao longo desse período, realizamos alguns convites, sempre respeitando o tempo e o momento de cada potencial parceiro. Nesse contexto, mais duas novas parcerias chegaram em março deste ano para preencher uma lacuna em relação à nutrição animal. A Tortuga, marca tradicional e com forte presença na pecuária gaúcha, e a Grain & Protein Technologies, com expertise em pós-colheita e sistemas de produção. Hoje, são 30 empresas parceiras da Escola do Agronegócio.
Ambas são referências no setor e contribuirão para qualificar nossos estudantes, unindo visão de mercado à formação técnica. Além disso, as parcerias ampliam a compreensão de aspectos econômicos e das dinâmicas do mercado, como ciclos de alta e baixa na produção, e de como se adaptar a esses momentos de oscilação.
Como o letramento digital ajuda a transformar tecnologia em resultado prático e rentabilidade para o produtor?
Ajuda de diversas formas. Um exemplo é a SmartCoop, plataforma que reúne 28 cooperativas associadas à CCGL (Cooperativa Central Gaúcha) e conta com mais de 28 mil produtores cadastrados. Ela permite registrar o dia a dia do produtor e, ao final, cada período oferece uma visão clara, baseada em dados, sobre os custos, investimentos, e fatores que impactam diretamente em sua produção.
Para que esse tipo de solução gere valor, é essencial que haja preparo na ponta. O letramento digital permite que técnicos e profissionais tenham domínio para aplicar as soluções e orientar os produtores de forma adequada. O mesmo ocorre com as máquinas agrícolas, que já contam com alto nível de tecnologia embarcada, mas ainda enfrentam desafios de uso.
No laboratório, é possível simular cenários, testar, aprender com os erros e ganhar experiência antes de ir para o campo. No fim, quem domina a tecnologia consegue extrair mais eficiência e melhores resultados — e esse movimento também reforça o protagonismo das novas gerações, que passam a atuar como elo importante na adoção de soluções e no aumento da rentabilidade das propriedades.
Diante de um setor cada vez mais tecnológico e orientado por dados, que perfil de profissional o agronegócio precisa formar para os próximos anos?
Cada segmento do agronegócio tem suas peculiaridades, mas a tendência é um profissional cada vez mais completo. As competências técnicas continuam sendo importantes, porém as habilidades comportamentais ganham muito peso — especialmente para liderar equipes diversas, tanto no chão de fábrica da indústria quanto porteira adentro no campo.
Saber liderar, comunicar e gerir conflitos passa a ser tão importante quanto o conhecimento técnico. Ao mesmo tempo, as competências digitais deixam de ser diferenciais e se tornam indispensáveis, já que esse profissional será responsável por transformar dados em decisões e tecnologia em resultados.
No futuro, inclusive, a formação de origem pode ter menos peso do que a capacidade de integrar conhecimento técnico, visão de mercado e uso de tecnologia. É essa combinação que vai definir os profissionais mais preparados para o agro.




