Quem circula pelas ruas centrais de Passo Fundo, no norte do Estado, dificilmente passa despercebido pelas placas de aluga-se espalhadas em vitrines e fachadas de imóveis comerciais. Em pontos tradicionalmente valorizados, como a Rua Morom e trechos da Avenida Brasil, salas que antes eram disputadas por lojistas agora permanecem disponíveis por mais tempo.
A mudança levanta uma dúvida frequente entre moradores e empresários: o aumento de imóveis vagos no Centro é um sinal de crise econômica ou reflexo de uma transformação no comércio da cidade?
A reportagem percorreu a Avenida Brasil, entre os bairros Petrópolis e Boqueirão, e identificou quase 50 imóveis comerciais térreos disponíveis para locação.
O empresário e corretor de imóveis Vinícius Freitas confirma que os espaços se tornaram mais visível nos últimos anos, principalmente nas salas térreas consideradas nobres.
— É fato que os imóveis comerciais, principalmente as salas térreas e os pontos mais valorizados de Passo Fundo, como a Rua Morom, apresentam uma vacância maior. A gente vê muitas placas de aluga-se espalhadas pela cidade — afirma.
Segundo ele, porém, a análise precisa ir além da simples observação das fachadas vazias.
— A gente precisa estar atento a alguns fatores. Existe um cenário pós-pandemia que trouxe o fortalecimento do e-commerce, do digital e uma reestruturação dos modelos de negócio — analisa.
Bairros ganharam força e mudaram a lógica do comércio
Outro aspecto apontado por Vinícius é o crescimento de novos polos comerciais fora da área central.
— Passo Fundo passa por um processo de descentralização. Os bairros estão ficando muito fortes e o perfil do consumidor está mudando — comenta.
A transformação é notada em regiões como Cidade Nova, São Cristóvão, Petrópolis e Boqueirão, que ganharam novos empreendimentos comerciais nos últimos anos. A localização no Centro já não representa automaticamente a garantia de fluxo de consumidores.
— Antigamente a certeza de venda por estar no Centro era praticamente imediata. Hoje, o Centro muitas vezes não oferece algumas conveniências que o consumidor procura, como facilidade de estacionamento e uma melhor experiência de compra.
Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Adolfo Freitas, o que está acontecendo é uma redistribuição geográfica da atividade comercial.
— Nós estamos observando que algumas lojas que antes ficavam instaladas exclusivamente no Centro estão migrando para shopping centers ou para bairros que hoje possuem grande concentração populacional. Nós não vemos isso como uma crise do comércio — diz.
Mais aberturas do que fechamentos
Os dados da Junta Comercial do Rio Grande do Sul reforçam essa interpretação. Somente em 2025, Passo Fundo registrou mais de 8 mil novos CNPJs. Já no primeiro semestre de 2026, o número de empresas abertas cresceu 9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Até agora, foram registradas:
- 5.705 empresas abertas
- 2.985 empresas fechadas
Centro continua sendo o principal polo comercial
Apesar da expansão dos bairros, entidades ligadas ao comércio afirmam que o Centro permanece como o principal núcleo econômico da cidade. A presidente do Sindilojas Passo Fundo, Deise Cristina Migliorini, destaca que os números continuam favoráveis à região central. A principal mudança, segundo a dirigente, está no comportamento de quem compra.
— No ano passado foram abertas 1.049 novas empresas no Centro. Esse número é maior do que os registrados em bairros como Boqueirão, Vera Cruz e Petrópolis. O consumidor hoje procura comodidade, bem-estar, segurança e estacionamento. Esse é um fator que acaba desfavorecendo um pouco a região central. — conclui.




