É em um pequeno ateliê no bairro Integração em Passo Fundo, no norte do Estado, que 10 mulheres transformam retalhos de tecidos em peças únicas de artesanato. A produção mais recente do grupo são bolsas e nécessaires confeccionadas a partir do reaproveitamento de persianas. A iniciativa já retirou do meio ambiente cerca de meia tonelada desse tipo de resíduo.
O grupo Mães da Cufa nasceu em 2020, a partir das oficinas culturais promovidas pela Central Única das Favelas (Cufa) para crianças da comunidade. Enquanto os filhos participavam das atividades, as mães aguardavam na frente da sede da entidade.
— Foi proposto para elas se gostariam de aprender algo para a geração de renda. Iniciamos com a produção de sabão caseiro e passamos para o biscuit. A partir disso, fomos nos estruturando. O grupo já chegou a ter 23 mulheres — lembra a representante da Cufa Passo Fundo, Alessandra Barcellos.
A costura entrou no projeto mais tarde, quando uma empresa da cidade trocou de nome e precisou substituir todos os uniformes. A sugestão partiu da própria contratante: transformar as peças em ecobags. A ideia foi apresentada ao grupo de mulheres, que aceitou o desafio. O resultado: cerca de 3 mil produtos confeccionados.
Com o aumento dos pedidos, e em busca de aprender mais sobre sustentabilidade, as artesãs fizeram um curso de capacitação na Universidade de Passo Fundo (UPF).
— Tínhamos que entender todo o descarte correto, reutilização e construção de novos produtos através dos uniformes. Fomos fechando mais parcerias. Começou como uma oficina e agora já é um negócio. Cada vez mais fomos expandindo e criando novos produtos. Já fizemos até mochilas para uma escola da cidade, também com o eco tecido — conta Alessandra.
No ateliê nada se perde. Até os botões das roupas ganham nova utilidade. O grupo reaproveita 99% dos materiais recebidos — o restante é usado na produção de tapetes de retalho.
Talentos que se complementam

Cada uma das dez integrantes do grupo Mães da Cufa carrega uma história diferente, e é justamente essa diversidade que faz o trabalho dar certo. Com personalidades e limitações individuais, Alessandra precisou adaptar processos e funções para cada integrante.
O time foi dividido em três grupos: três mulheres ficam na preparação das peças, duas no corte e as demais na costura. O trabalho das Mães da Cufa já alcançou outras cidades do Estado, como Trindade do Sul e Espumoso.
— Muitas vezes, as empresas não sabem como descartar uniformes ou peças antigas. Aqui, essas roupas são transformadas e podem ser entregues aos colaboradores em formato de brinde. As empresas que nos procuram valorizam, principalmente, o acabamento e a qualidade que temos nos materiais que produzimos — explica Alessandra.
A renda das mulheres varia conforme as encomendas. Cada pedido é avaliado coletivamente para definir o custo e o pagamento de cada participante. Algumas integrantes já chegaram a receber até R$ 3 mil por projeto.
— Aqui na Cufa, todos os produtos que as Mães fazem são feitos com amor de mãe, com todo aquele cuidado. O grupo é aberto para quem quiser participar, desde que tenha vontade e que queira transformar a própria vida — destaca.
Recriando histórias
Ao longo do trabalho, o projeto tem feito mais do que transformar materiais recicláveis em peças ecológicas: tem recriado histórias.
Cada mulher que chega ao grupo carrega sua própria trajetória, marcada por desafios e superações. No ateliê, essas histórias se entrelaçam, ganhando novos capítulos de esperança e independência. O que antes podia ser visto como um ponto final, hoje se tornou um recomeço costurado com cuidado, união e a vontade de seguir em frente.
Marilei Vieira da Silva participa do projeto há quatro anos. Para ela, a rotina no ateliê é um eterno aprendizado.
Pra mim foi uma virada, porque aprendo muito e convivo com pessoas que também querem aprender. Estamos sempre tentando evoluir. Esse grupo se tornou uma família.
MARILEI VIEIRA DA SILVA
Costureira
O sentimento de pertencimento é compartilhado entre todas as mulheres que frequentam o grupo.
— Somos uma família. Eu gosto de vir, porque quando estou triste, venho para cá e fico alegre com as meninas — afirma Rosimara dos Santos Almeida, integrante do grupo há cinco anos.
— Eu gosto muito de estar aqui. A gente se distrai com as amigas, conversa. Criamos um vínculo — complementa Maria Barcelos da Silva.




