Feijão no café da manhã pode parecer estranho para quem não está acostumado, mas, nos Cafés de Chaleira de Passo Fundo, no norte do Estado, é ele o centro das atenções. Preparado com carne de porco, bacon, linguiça calabresa e farinha, o feijão-mexido — ou revirado — é sempre procurado pela comunidade durante os Festejos Farroupilhas.
Neste ano, 12 entidades tradicionalistas em Passo Fundo participam da programação dos Cafés de Chaleira, que começaram na segunda (8) e seguem até o dia 19. O primeiro a receber o público foi o CTG Osório Porto, anfitrião dos festejos na cidade em 2026.
No local, a receita do feijão é comandada por pelo aposentado Valmeri Francisco da Silva, que aprendeu a cozinhar ainda na adolescência, com apoio de Antônio Valdir Miranda da Silva, responsável pela churrasqueira e pela boia campeira da entidade. Juntos, eles mantêm uma receita que, segundo os dois, é a mesma por anos.
— Eu aprendi desde os 12, 13 anos. Ali, já fui aprendendo a fazer comida. Depois vim para dentro do CTG e estou há uns 30 anos aqui. O primeiro ano tinha um senhor de idade que fazia, então eu acompanhei ele. Depois, por causa da idade, ele saiu, ficou eu e, graças a Deus, tenho a parceria do Valdir — conta Valmeri.
Como é feito o feijão
Para o primeiro café no Osório Porto, o feijão começou a ser preparado no dia anterior. Os grãos são cozidos e recebem os ingredientes que dão sabor ao prato: pele de porco, bacon e linguiça calabresa.
Na manhã seguinte, por volta das 6h, começa a etapa que dá nome ao prato. Com o feijão já cozido, em outra panela a farinha é acrescentada aos poucos e misturada enquanto a panela é mexida.
O ponto, explicam os cozinheiros, exige atenção. O revirado não pode ficar nem muito mole nem muito duro. Aliás, ainda é preciso considerar que ele ganha consistência depois de pronto.
— O segredo é o tempero, as coisas que a gente põe. E o revirado é a farinha. Vai colocando farinha, vai mexendo até ele pegar consistência. Se passar do ponto, ele vai endurecer depois — explica Valdir.
Para acompanhar o feijão, a equipe também prepara a farofa separada. No primeiro café preparado pela entidade, foram utilizados 25 quilos de feijão, quantidade suficiente para servir entre 400 e 500 pessoas.
Mesa farta para o café

Além do feijão, os Cafés de Chaleira costumam oferecer uma variedade de alimentos caseiros, como bolos, cucas, pão, cueca virada, geleias, salame, morcilha, queijos e farofa. A mesa é inspirada na culinária tradicional do Rio Grande do Sul, com receitas associadas desde aos tropeiros até às famílias gaúchas de hoje.
No CTG Osório Porto, a produção dos alimentos doces também começa dias antes. Maria Noemi Garcia da Silva, esposa de Valdir, conta que, ainda no sábado, foram preparadas mais de 800 unidades de cueca virada. Depois, vieram os bolinhos fritos e os bolos.
— Geralmente uma fica com uma função, outra com outra, né? A gente se divide nas tarefas. Desde sábado à tarde a gente já está trabalhando. Antes disso, as outras mães já fizeram bolacha caseira pra doar e ontem fizemos bolinho frito e bolo de forma — relata.
Cozinha reúne gerações
Por trás das grandes panelas e das dezenas de alimentos preparados está uma rede de voluntários. No CTG Osório Porto, mais de 30 pessoas se envolvem diretamente com a cozinha para colocar o café na mesa.
De acordo com o patrão da entidade, Antônio Dias do Prado, pais, mães e integrantes das equipes se revezam para que a produção avance aos poucos.
— A preparação começa bem antes. Os pais e as mães conseguem as doações, então a gente faz tudo com doação. E daí tem as equipes, a equipe da cozinha, a equipe da boia campeira. Então a gente começa a fazer o trabalho terça, quarta, quinta, todo dia se faz um pouquinho — explica.
Na família de Valdir, a participação atravessa gerações. Ele levou a esposa, Maria Noemi, e a neta, Mariana Luiza, para ajudar na cozinha. A jovem participa de diferentes etapas, desde cortar os bolos até auxiliar na fritura dos alimentos.
É um movimento que se repete dentro da própria entidade: quem aprendeu uma receita com alguém mais velho passa o conhecimento adiante, mantendo não apenas o sabor, mas também o modo de fazer.
Valdir, que participa há 45 anos do CTG Osório Porto, aprendeu a preparar parte dos pratos com o cunhado, já falecido. Ao lado dele, ajudava nas cozinhas e acompanhava o preparo das comidas até dominar as receitas. Hoje, é ele quem permanece ensinando e trabalhando para a entidade.
— Troca patrão e nunca me deixam sair. O ano passado, ano retrasado, pedi para me deixarem fora um pouco. Daí não me botaram na patronagem. Mas o primeiro baile que teve foram lá em casa me buscar. E daí estou aqui até agora.
Para o patrão Antônio, é justamente essa participação das famílias que garante que a tradição continue existindo.
— O que nos motiva é a questão do tradicionalismo. A gente trabalha em função do tradicionalismo. A nossa vivência aqui no CTG é com as famílias e as crianças. O que deixa o CTG vivo, o que deixa a tradição viva, é você conseguir passar para os que vêm depois, para as próximas gerações.




