
Muito antes dos palcos lotados, das participações em programas de música e dos shows pelo país com a Cachorro Grande, Beto Bruno viveu uma rotina que ainda desperta lembranças em Passo Fundo, no norte do Estado.
Na década de 1990, o músico trabalhou em uma loja de discos no centro da cidade, formou sua primeira banda e ajudou a construir parte da cena de rock local que marcou uma geração.
O artista voltou a sua cidade natal, onde realizou a apresentação no espetáculo "Beto Bruno Volta às Origens", promovido pelo Sesc dentro da programação do Mês do Rock.
A loja de discos que virou ponto de encontro do rock

Beto, nascido em Passo Fundo, percorreu diversos Estados do país até retornar para a cidade natal, em 1994, vindo de Minas Gerais. Em poucas semanas conseguiu emprego na CD Holmes, tradicional loja de discos que funcionava no Shopping da Praça.
Mais do que um local de trabalho, o espaço se transformou em um ponto de encontro para músicos, colecionadores e apaixonados por música.
— Em duas semanas que eu cheguei em Passo Fundo já consegui emprego porque tinha experiência com lojas de discos. Fiquei aqui até 1999. A minha casa era isso aqui. Não era só uma loja de discos. Era onde os músicos se encontravam — recorda.
Segundo ele, muitas amizades começaram no local. Também foi ali que surgiram bandas, ideias para apresentações e conexões que alimentaram a cena cultural da época.
— Aqui muita banda se formou. Era daqui que saíam as ideias de onde iríamos tocar, quem tocaria em cada final de semana e os projetos que surgiam — relembrou.
Os tempos dos Malvados Azuis
Entre as bandas que nasceram naquele período estava a Malvados Azuis, primeiro grupo de Beto Bruno em Passo Fundo.
A formação tocava regularmente em bares da cidade e tinha repertório focado em clássicos do rock. Com o passar do tempo, começou a apresentar composições próprias.
A mudança nem sempre foi compreendida de imediato pelo público.
— A gente tocava Beatles, Stones, The Who. Quando começamos a colocar músicas autorais nos shows houve um estranhamento. As pessoas queriam ouvir o que já conheciam — relembrou.
Mesmo assim, o período é lembrado por ele como um momento decisivo na construção da confiança como compositor.
A decisão de novamente deixar Passo Fundo

Em 1999, Beto Bruno tomou uma das decisões mais importantes da carreira: se mudar para Porto Alegre.
Ao contrário do que muitos imaginam, a mudança não foi motivada apenas pela música. Durante uma visita à capital, ele conheceu Denise, que se tornaria sua esposa. A mudança aconteceu pouco tempo depois.
— Eu me apaixonei e me mudei para Porto Alegre. Juntou o amor e a vontade de viver de música — relembrou.
O início não foi simples. No inicio, enfrentou dificuldades financeiras enquanto buscava espaço na cena cultural da capital. Foi nesse período que conheceu os músicos que, mais tarde, formariam a Cachorro Grande.
Anos depois, já consolidada no Rio Grande do Sul, a Cachorro Grande tomou uma nova decisão considerada arriscada: mudar-se para São Paulo.
A aposta abriu portas para apresentações nacionais, programas de televisão e maior exposição da banda.
— Quando fomos para São Paulo tivemos que começar tudo de novo. Mas foi ali que a banda ganhou o país — analisou.
Apesar das décadas longe de Passo Fundo, algumas referências continuam presentes.
Entre elas está a Catedral Nossa Senhora Aparecida, que o músico cita como um dos locais mais importantes da cidade em sua memória afetiva.
— Sempre que passo por Passo Fundo vou até lá. É um lugar muito forte para mim — comentou, enquanto passava pelo local.
O retorno da Cachorro Grande

A banda encerrou as atividades em 2020. O reencontro aconteceu anos depois, impulsionado por um documentário que revisitava a trajetória do grupo.
Ao relembrar a história, os integrantes passaram a olhar para a trajetória sob outra perspectiva. Segundo Beto, a volta não foi pensada apenas para reviver o passado.
— Eu queria voltar com um disco novo. Somos artistas. Precisamos apresentar algo novo para o público — comentou sobre a decisão.

