
O interior gaúcho vai marcar presença na maior premiação do cinema internacional, o Oscar, que acontece no domingo (15). Natural de Passo Fundo, a atriz e produtora Rafaela Pavin integra o elenco de "O Agente Secreto", que concorre a quatro estatuetas.
Em entrevista à GZH Passo Fundo, a profissional contou que era "uma pessoa normal" e, de repente, passou a fazer parte de uma produção reconhecida em todo o mundo. Sem experiência diante das câmeras, Rafaela gravou um teste às pressas. Dez minutos depois, recebeu a resposta de que tinha sido aprovada:
— Foi totalmente inusitado. Tão inusitado quanto ter recebido o convite para participar — relembra.
Dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, o longa-metragem se passa em 1977 e aborda a ditadura militar por um recorte lateral, fugindo da reconstituição histórica tradicional do período.
Formada em Relações Públicas, Rafaela construiu a trajetória como produtora cultural, com atuação em Passo Fundo e no RS. O convite para participar partiu do diretor assistente do filme, Leonardo Lacca.
— Eu não escolhi ser produtora. A produção que me escolheu. Quando eu vi, eu já era. E a atuação também veio assim, de forma inesperada — relembra.
Do interior aos sets
Nascida em Passo Fundo, Rafaela saiu da cidade aos 17 anos para estudar e passou duas décadas entre São Leopoldo, na Região Metropolitana, e Porto Alegre.
Em 2011, retornou ao norte gaúcho e participou da implementação de iniciativas como o Conselho Municipal de Cultura e grupos de trabalho da Lei Aldir Blanc de incentivo à cultura.
— É muito fácil atuar a partir de um lugar onde tu tem facilidades. Na capital sempre é mais fácil, porque tem mais opções, mais recursos. No interior a logística é mais difícil, mas também é onde a gente aprende a escutar e construir junto — avalia.
A vivência no interior, segundo ela, atravessou também sua construção em cena. Sem conhecer o roteiro completo — ela só assistiu à obra pronta na pré-estreia — Rafaela buscou referências na própria memória.
— Eu lembrava da minha infância, das pessoas com quem eu convivia, das ruas perto da minha casa. E lembrei do “mas que barbaridade”, que eu escuto desde que nasci — conta.
A expressão, dita de forma espontânea durante a gravação, permaneceu no corte final e se tornou um dos traços que marcaram sua participação. O sotaque gaúcho foi destacado inclusive em materiais de divulgação:
— Nada foi fabricado, era eu falando. E muita gente comentou do sotaque, até gaúchos que moram fora (do país) disseram que se emocionaram, que lembraram de casa. Isso é muito lindo.
O impacto da estatueta

As indicações do longa ao Oscar incluem categorias de peso, como melhor filme e melhor direção de elenco. Para Rafaela, a surpresa maior foi justamente a valorização coletiva da equipe, que agora torce pela conquista de uma estatueta.
— São mais de 70 personagens com fala. Todo mundo tem importância no desenrolar da história. Isso é muita maestria. Por muitas vezes somos vistos como o “imaginário da sociedade”, mas a cultura movimenta muita economia. Talvez isso (as indicações ao Oscar) ajude a diminuir a resistência com relação aos recursos para a cultura — avalia.
Entre um take e outro, Wagner Moura questionou a atriz se ela realmente nunca havia atuado. Para ela, soava como gentileza. Hoje, ela conta que reconhece o peso do elogio.
Para a Rafaela mais jovem, que dava os primeiros passos da carreira em Passo Fundo, o conselho seria simples e direto, no mesmo tom que ganhou as telas:
— Vai, bicha. Só vai.
