
É no terreno de esquina da Avenida Brasil, no bairro Petrópolis, em Passo Fundo, que o colorido da lona do Circo Fantástico anuncia a chegada de um mundo à parte. Por trás do espetáculo que encanta o público, há famílias inteiras que transformam o picadeiro em casa.
O circo, fundado em 1994 na cidade paranaense de Lobato, já percorreu mais de três décadas de estrada e hoje carrega cerca de 50 profissionais entre artistas, técnicos e trabalhadores da parte administrativa.
Ao todo, são 12 trailers, além de 10 caminhões, que se movem como pequenas casas sobre rodas, levando, além de sonhos, todo o material do circo). A cada nova parada a estrutura é reconstruída: dentro de três a quatro dias, o espaço vazio se transforma em uma arena cheia de luz e magia.
Antes de Passo Fundo, onde estrearam no dia 3 de outubro, os artistas do Fantástico passaram por Santa Rosa, e na próxima semana seguirão para Ijuí.
Em cada cidade, uma nova vizinhança, um novo colégio e um novo público. Para quem nasceu sob a lona, como o apresentador do espetáculo Magno Ayres, de 35 anos, o movimento é natural. Ele é a quarta geração de uma família circense.
— Muita gente tem curiosidade de saber como é a vida no circo, mas pra gente é rotina. As crianças estudam, cada um tem o seu trabalho e os seus compromissos. É como se fosse uma vizinhança — afirma.

Há quem também tenha vindo "de fora" e trocado a vida da cidade pelo espetáculo. A catarinense Emanuele Pagno Lupato, 32 anos, conheceu o marido Henrique, malabarista e artista do globo da morte, quando ainda fazia faculdade de Recursos Humanos. Hoje, 14 anos depois, ela se vê completamente adaptada à rotina circense.
— No início foi bem diferente. Agora, quando a gente tira um mês de férias, já começa a sentir falta do público. Eu não conseguiria mais me adaptar à cidade. É totalmente diferente a rotina da cidade com a rotina do circo.
Futuro que nasce no picadeiro
No Circo Fantástico, o futuro se aprende observando. As crianças crescem cercadas por números, aplausos e olhares atentos. O picadeiro não é somente dos adultos, é um espaço onde os filhos se espelham nos pais e aprendem o ofício brincando.
Os irmãos Lorenzo, 8 anos, e Gabriel, 3, são filhos do Henrique Maximiliano e da Emanuele e participam das apresentações ao lado do pai. Antes do show, se transformam em pequenos palhaços: o mais velho ajuda o caçula a vestir o figurino e a desenhar o sorriso vermelho no rosto. Depois, por volta das 20h30min, entram juntos em cena e repetem gestos que veem todos os dias.
— Quando crescer quero trabalhar no circo. Quero ser malabarista e fazer o globo da morte igual o meu pai — afirma Lorenzo.
Assim como muitos artistas do Fantástico, Henrique representa a quarta geração de uma família tradicional circense. Começou a treinar aos seis anos e, aos oito, já se apresentava.
— As crianças de circo acabam brincando de circo. Para eles não é uma profissão, é uma brincadeira que, no futuro, acabam apreendendo e se profissionalizando.
Entre as novas gerações também está Lara Emanuelle Brito da Silva, 13. Ela já participa de coreografias e números de mágica, mas sonha com o momento em que estreará o seu próprio número.
— Pretendo fazer bambolê. Já estou ensaiando. Se tudo der certo estreio nesse ano ou ano que vem.
De sala de aula em sala de aula
Enquanto as lonas se erguem e os palhaços se preparam, a vida escolar das crianças segue seu próprio ritmo. Os filhos das famílias circenses chegam a estudar em até 10 escolas diferentes ao longo do ano, e a adaptação não é apenas social, mas também acadêmica.
Emanuele, que é responsável por matricular as seis crianças, explica que cada chegada exige planejamento.
— A gente organiza tudo uma semana antes para eles perderem o mínimo de aula possível. Temos toda a documentação da vida escolar deles. Levamos sempre os atestados de frequência e as notas parciais de todas as matérias dos colégios anteriores. No final do ano, juntamos todas as notas a fechamos o ano letivo deles. Nunca repetiram de ano.
Isabella Victoria, 11 anos, é filha do Magno, e afirma que se adapta fácil às idas e vindas.
— Às vezes eles estão aprendendo uma matéria que eu já sei. Outras vezes é o contrário, mas sempre dá para acompanhar. Nunca precisei de reforço extra.
O pequeno Aquiles Martines Caceres, 3 anos, está no começo da vida escolar e também se acostumou à rotina das trocas constantes.
— No começo ele chorava, não queria se separar de mim, mas, conforme ele foi crescendo, entendeu que na escola tem atividades legais, crianças diferentes, novos amigos e professoras. Hoje ele gosta muito. Quando falamos que ele vai para a escola fica todo animado — afirma a mãe, Luana Martines Souza.
Na família do Mauricio Fidel Melo Caceres, marido da Luana, o gosto pelo circo começou com o bisavô do artista. Ele lembra que, no passado, estudar era bem mais difícil.

— O estudo no circo sempre foi um obstáculo. Se você analisar os mais antigos, a maioria não passou da quarta ou quinta série. O que chegou mais longe ali foi na sétima série. É um obstáculo ainda, mas é mais fácil de ultrapassar.
Na cidade, quem recebe as crianças circenses é o Colégio Notre Dame. Conforme o vice-diretor da instituição, Vanderlan Lima, o objetivo da equipe pedagógica é fazer com que os estudantes tenham o mínimo possível de prejuízo na aprendizagem.
— Faz parte da nossa dinâmica esse acolhimento. Não focamos somente na questão do aprendizado, que é fundamental, mas também a construção dessas conexões, que são tanto para eles que nos visitam, quanto para nossos estudantes permanentes, e que são para uma vida toda.
Cinco anos para um minuto de aplauso

Por trás das luzes e dos aplausos, há uma rotina de treinos, paciência e superação. Cada número exige preparação constante, mesmo daqueles que nasceram sob a lona. Enzo Royter, 21 anos, é malabarista e um dos artistas participantes do globo da morte. O número, que combina precisão e coragem, é resultado de anos de prática.
— Eu sempre tive curiosidade em aprender. É uma apresentação que encanta, tanto o público quanto a gente do circo. Na volta da pandemia, o dono do circo me falou que, se eu quisesse ensaiar, eles ofereciam a moto. Foi o Magno quem me ensinou — conta Enzo.
De lá para cá, foram cerca de cinco anos até Enzo se apresentar pela primeira vez.
— A gente acaba se acostumando. O principal é manter a calma e prestar atenção. É normal, igual dirigir.
Circo Fantástico
- Últimos espetáculos em Passo Fundo: 1º e 2 de novembro
- Onde: Avenida Brasil, bairro Petrópolis (ao lado da Havan)
- Horários dos espetáculos: 16h, 18h e 20h30min
- Ingressos: podem ser adquiridos no local.





