
Ivaldino Tasca, 78 anos, é o patrono da 37ª edição da Feira do Livro de Passo Fundo, que acontece até domingo (9) na cidade. O autor de 25 livros publicados, entre textos históricos a contos infantis, conversou com GZH Passo Fundo sobre a homenagem recebida e a sua relação com a literatura.
Nascido em Barra Funda, município de 2,5 mil habitantes do norte gaúcho, Tasca fez de Passo Fundo sua cidade do coração desde os 12 anos. Foi na mesma época que a sua relação com os livros começou, como uma espécie de refúgio para a mente, que o acompanhou durante toda a vida.
— Tomei gosto (pela leitura) na infância, quando tivemos que lidar com um incêndio na fábrica de vassouras do meu pai, e nos mudamos do interior para cá. A leitura foi uma forma de estabilizar a minha mente, me dar otimismo, e nunca mais parei. Hoje tenho uma biblioteca em casa com mais de mil livros — conta.
Esse mesmo amor pelos livros também trouxe experiências difíceis na juventude. Durante a ditadura militar, ele recorda de precisar queimar alguns dos exemplares que tinha em casa. Isto porque títulos que eram considerados subversivos ao regime ditatorial eram proibidos:
— Foi um momento ruim, complexo, mas não tínhamos saída. Nossos livros não eram explicitamente contrários a ditadura, mas qualquer texto que gerasse uma reflexão, uma ideologia, era proibido, e tivemos que queimar. O medo te perturba profundamente, e durante a ditadura ele tomou conta de mim.
Do jornalismo aos 25 livros publicados
Na carreira, Tasca chegou a cursar alguns semestres dos cursos de Direito e Filosofia, mas precisou abandonar a faculdade também por repressão da ditadura. Anos depois, começou atuar como jornalista em mídias de Passo Fundo e passou a conciliar o trabalho no rádio com a escrita dos livros.
— Na faculdade eu havia participado de um movimento contra o aumento do valor da anuidades, e precisamos deixar os estudos por subversão, uma forma de nos punir naquele período. Depois, me encontrei no jornalismo e lancei meu primeiro livro sobre Cuba — resume Tasca.
O primeiro lançamento a que Tasca se refere é Cuba Não Briga Com o Cozinheiro, escrito com memórias de viagem, junto de Ricardo Pérez. Eles abordam os 40 anos após a Revolução Cubana, com entrevistas e depoimentos.
Depois dele, foram lançadas outras 24 obras. A mais recente, A Mãe Preta, será lançado no dia 26 de novembro e retrata a lenda de Passo Fundo.
— Cada cidade tem a sua lenda. E a lenda da Mãe Preta nasce basicamente junto a Passo Fundo. Então eu pego essa história e recrio um cenário, que ela veio de São Paulo, lá em 1860, e parou por aqui para pernoitar. Amamentou filhos dela e de outras mulheres e daí nasceu a história da fonte cuja água “quem beberá não deixará de voltar a sua terra”.
“Ser patrono é como dar o troco pelo sofrimento que passei”
Hoje como atual patrono da Feira do Livro da cidade, Tasca assume um posto que já foi de grandes nomes da literatura do Estado como Jaime Sirotsky (em 2001), David Coimbra (2008) e Luis Fernando Verissimo (2017). O convite foi recebido com surpresa, mas reconhecido por ele:
— Ser patrono era um cargo que nunca pensei ocupar. Quando recebi o convite, refleti. É uma espécie de resgate da minha trajetória. Como se eu estivesse dando o troco por todo o sofrimento que passei, por ter sobrevivido à ditadura. Recebi como um reconhecimento pessoal.
Para o futuro, o escritor garante que os livros ainda irão o acompanhar por muito tempo. Além das 26 obras já finalizadas, ele revela que tem ao menos oito preparados para serem publicados:
— Eu tenho seis livros já prontos, e dois que ainda estou mexendo. Só falta publicar, porque eu ainda quero passar dos 30 prontos antes de morrer, só falta uma ajudinha financeira, e eu vou publicar — conclui o patrono, bem-humorado.
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