
A Universidade de Passo Fundo (UPF) começou 2026 aprimorando a infraestrutura de seus laboratórios. Por meio do projeto “Tecnologias de inteligência artificial no setor leiteiro”, a instituição conseguiu investimento de aproximadamente R$ 2,8 milhões, que foi concedido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e será utilizado para aquisição e instalação de novas máquinas voltadas à cadeia do leite.
Entre as novidades, destacam-se o equipamento de análise de leite, que já está em fase de testes no Laboratório de Serviços de Análise de Rebanhos Leiteiros (Sarle) da universidade, e o sistema de análise espermática, ideal para pesquisas sobre reprodução animal. A partir desses novos investimentos, a instituição pretende estruturar um centro de inteligência artificial para monitorar a qualidade do leite em todas as etapas produtivas – desde a fazenda até o consumo final.
De acordo com o professor da Universidade de Passo Fundo e responsável pela iniciativa, Carlos Bondan, desde 1997 a UPF mantém um laboratório que analisa leite, promove pesquisas para identificar problemas, propõe soluções e leva informações para gerar melhorias no campo.
– Alguns artigos, inclusive, destacam que o desenvolvimento da bacia leiteira do Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul foi impulsionado pelo trabalho da UPF, que vem formando agrônomos, veterinários e engenheiros de alimentos que trabalham dentro da comunidade e fomentam a cadeia. Nosso foco é sempre trazer inovação, e o novo projeto segue esse movimento – explica Bondan.
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Nesta entrevista, Bondan fala sobre o projeto e destaca como os novos equipamentos podem trazer avanços e melhorias significativas ao setor leiteiro do Rio Grande do Sul.
O apoio da Finep foi fundamental para viabilizar a iniciativa. O que essa aprovação representa para a universidade e para a região?
Os sistemas são extremamente onerosos e é muito difícil aportar tudo isso para dentro de um laboratório sem financiamento externo. Portanto, o apoio da Finep foi fundamental para nos permitir a aquisição de três equipamentos. Eles analisam o leite, o solo e um, de última geração, que possibilita a análise seminal, auxiliando no acompanhamento e na previsão de possíveis problemas no rebanho, principalmente relacionados aos machos.
Quais são os diferenciais tecnológicos que esses novos equipamentos oferecem em relação ao que já existia na UPF?
Todos os equipamentos adquiridos são inovadores e realizam análises que, até então, eram feitas, mas não em escala industrial. O novo sistema de análise de leite, por exemplo, permite verificar 600 amostras por hora. São máquinas com agilidade muito grande, que possibilitam atender praticamente todo o Estado do Rio Grande do Sul, e é isso que nós pretendemos.
A intenção do projeto é permitir análises mensais e identificar doenças que ainda são subclínicas. Isso significa que tiveram início no animal, porém, ainda não apresentaram reflexos visíveis e perdas. Trata-se de algo muito importante para que possamos atacar o problema no princípio, fazendo com que as condições não se tornem clínicas. O objetivo é identificar um possível problema que acontecerá e, a partir daí, criar mecanismos para comunicar o produtor. Assim, ele poderá tomar as medidas necessárias para resolver o que for necessário.
Como os novos investimentos devem impactar a produtividade e a qualidade dos rebanhos?
As análises serão feitas e o trabalho será conduzido ao longo de cinco anos. Elegeremos cerca de cinco mil propriedades no Rio Grande do Sul, que enviarão leite mensalmente para o laboratório. A análise será subsidiada e o produtor terá um custo pequeno, pagando apenas pelo frasco para a coleta da amostra.
Todos os dados serão analisados e as propriedades terão acesso aos resultados, inclusive com as indicações de problemas. Com isso, o corpo técnico que atende cada fazenda não apenas terá posse desses dados, mas conseguirá conduzir a situação da melhor forma possível para resolver possíveis desafios.
Como a inteligência artificial será aplicada no monitoramento da qualidade do leite?
Vamos aproveitar as informações coletadas para municiar um banco de dados. Obviamente, tudo será sigiloso. Utilizaremos as informações, mas o nome do produtor ou da fazenda, por exemplo, não será exibido. A partir disso, esses dados serão transformados em algoritmos, possibilitando que a nossa equipe de experts desenvolva softwares e mecanismos responsáveis por fazer a interação entre os materiais e trazer informações que possam indicar adversidades.
Vale a pena destacar que os dados serão abertos, já que a iniciativa é financiada com dinheiro público. Encaminharemos os resultados principalmente aos setores governamentais, que poderão identificar obstáculos e propor soluções e assistências técnicas. Isso só reforça o propósito da nossa iniciativa, que visa melhorar a qualidade do leite produzido no Rio Grande do Sul e a rentabilidade do produtor.
Quais são os principais desafios do setor leiteiro? Como o projeto pretende ajudar produtores a enfrentá-los?
Um dos principais obstáculos é a oscilação de preços, já que observamos momentos muito bons e outros ruins em relação ao valor pago ao produtor. Outro ponto é a questão da qualidade, que já é muito positiva. Afinal, o leite é um alimento monitorado constantemente e o produtor que não apresenta o padrão mínimo necessário acaba sendo penalizado ou até mesmo excluído do sistema produtivo. O que queremos é alcançar o suprassumo em termos de qualidade, melhorando cada vez mais.
Outro desafio é a preocupação em relação ao bem-estar animal. Nosso projeto, por meio da inteligência artificial, consegue mapear as fazendas e perceber se a vaca está bem ou se há algum problema. Portanto, é possível inferir a situação. Animais que não vivem de forma adequada em seu ambiente não conseguem entregar todo o potencial genético em termos produtivos. Consequentemente, isso resulta em menor receita e rentabilidade para o produtor.
Como esse avanço tecnológico da UPF beneficia produtores, cooperativas e a indústria da região?
São benefícios que alcançam toda a cadeia. O leite de melhor qualidade e o aumento da produtividade certamente resultarão em maior receita ao produtor. A indústria e as cooperativas que compram esse leite também serão beneficiadas, porque quanto maior a qualidade, maior a quantidade de produtos lácteos que poderão ser produzidos.
Outro aspecto importante é que esse leite com maior qualidade resulta em produtos também aprimorados. Isso traz benefícios para a indústria, que consegue posicionar melhor seus itens no mercado. Além disso, o consumidor tem acesso a produtos com características de paladar e olfato mais elevadas.
Quais são as expectativas da UPF para os próximos anos a partir dessa nova estrutura de pesquisa e inovação?
O projeto beneficia a Universidade de Passo Fundo por gerar possibilidade de conhecimento e interações entre diferentes áreas. Temos alunos de graduação e pós-graduação atuando conjuntamente nos mais diversos campos que englobam o projeto. Isso impulsiona o conhecimento e o desenvolvimento pessoal. Assim, seguimos formando, cada vez mais, pessoas altamente preparadas para atender às expectativas da nossa sociedade.


